'Amadu Mussa' - a crónica de "sakudi bunda no bai"

 

Foto: Escola de Filosofia Pedro Mota

Fidju nunka padidu tras di si mame - Provérbio guineense 

Um pedido antes de me esticar: não seja o pobre deste texto julgado pelo seu título, porque, mesmo que se descubra no fim que não passa de um rascunho impostor, com pretensão de perturbar o falso moralismo vendendo moral ele mesmo, não deixa de ser um todo, um texto, e não um título ou um parágrafo.

Imagino-me neste momento sentado no chão desnudado do Estádio Lino Correia, de bunda no chão, literalmente, e a discutir política com pessoas que me são próximas, pessoas amigas, digamos, porque só estas devem saber que respiro política desde os meus 14 anos de idade.  Mais ou menos. Tema da conversa? "Baluris torkiadu / agu bida forinha / djunta mon / bida mara mon". A cantora? Karyna Gomes. A música é uma extraordinária reflexão sobre os descaminhos da sociedade guineense, que alguns preferem retratar de sociedade de kakris na kabas, metáfora para as lutas intestinais para chagada à meta numa corrida em que todos perdem no fim, porque ninguém se lembrou antes de perguntar das regras do jogo. Jogo pela sobrevivência e jogo político, mesmo daqueles que pensam convencer-nos ao contrário quando gritam: ami nha boka ka sta la! Se não fazem a política (o que é verdade em muitos desses casos),  a política lhes faz a eles. Forti o meladu!

E a discussão se alastra para os incontáveis problemas que os donos disto tudo empurram à nossa frente e acabam por ser nossos, porque, no fim, somos nós, nossos primos, parentes, darentes... que carregamos todos os djongagus. Nós que não temos aulas para frequentar, porque os professores não recebem o seu salário há um ano. Reivindicam, mas fazem sempre questão de lembrar que a sua causa "não é fazer política", ao mesmo tempo que anunciam entregar um caderno reivindicativo num ministério da educação. Nós que não temos centro de saúde na nossa tabanca, nem transporte capaz de fazer as nossas estradas esburacadas até ao cemitério público de Simão Mendes. E quando por lá chegamos de boleia, dizem-nos que as portas estão trancadas porque os médicos estão em greve. Sintonizamos a rádio nacional e ouvimos o sindicato a reclamar de meses de salários em atraso, mas chama a atenção: "Anos no ka sta li na fasi pulitika. Anos i ka pulitikus". De repente, o nosso colega Amadu Mussa lembra-nos que é assim em todo o lado. Todos os funcionários públicos sabem quem lhes deve 12, 24, 36 meses de salário: o governo, a mais política de todas as instituições. Reivindicam, mas ninguém quer que a sua reivindicação seja vista como política. 

Dizem que não querem ser presas fáceis do aproveitemento político. Há alguma legitimidade nisto. Mas eu insisto que é mais por fraca consciência política. Ou, no mínimo, o receio de se sujarem com o cocó a feder nos partidos políticos guineenses. Mas isso não pode ser a justificação, porque se um um professor confundir 'politização' com 'partidarização', então estaremos mesmo feitos aos bifes. A mesma desgraça que põe um músico dizer que não tem nada a ver com disputas políticas. Mas se lhe for perguntado porque aceitou cantar para Sissoco numa campanha eleitoral, ou fazer serenatas no quintal do palácio do ditadorzeco, responde que é seu trabalho. É onde vive. E o povo oprimido? Cada qual por si e ditadura para todos! Ou seja: trabalho de músico que não tem nada a ver com a política, mas vende a sua música para disputas políticas e para higienização de uma ditadura. 

Amadu Mussa parece ser entre nós o mais atento às estratégias de estupidificação em massa de que temos sido alvos. Lá nos contou a passada de que a Câmara Municipal de Bissau (CMB) emitiu um despacho a proibir os concertos no Estádio Lino Correia, justamente onde nos imagino sentados a discutir feitos deputados num parlamento sem bancadas. O motivo da proibição? Moradores vizinhos do estádio queixam-se de não conseguirem dormir por culpa dos concertos que servem de hipnóticos para os jovens fingirem não se lembrar da desgraça em que vivem: sem escola, sem saúde, sem emprego e ainda por cima ganzados de Seco Tidjane. 

A ordem veio da CMB, mas o anúncio verbal que se seguiu ao despacho veio do todo-poderoso Único Chefe. E a seguir a cambalhota na jogada: a Ministra da Cultura, que devia resolver o problema de falta de espaços para eventos culturais como grandes concertos musicais, aparece nos holofotes a pedir calma à população porque vai falar com "a sua excelência Presidente da República" para ver se pelo menos o concerto dos seus afiliados se realiza. E o resto dos concertos? Que se lixem, se não tiverem na comissão organizadora um ex-colega de turma do filho do presidente da CMB, ou um padrinho/madrinha que lhes consiga audiência com o Único Chefe para este lhes conceder os seus bons ofícios em ordens superiores que só ele pode emitir. Se alguém mais os ousar emitir, terá de ser em seu nome e em seu pleno benefício. Deixemos esta questão de lado, peço ao Amadu Mussa. Mas ele ainda insiste em rematar com esta pergunta: o que não é política nesta confusão conscientemente orquestrada? A táctica é velha: criam problemas para depois aparecerem com a solução mágica que lhes ponha na foto como salvadores da pátria. 

Lembro ao Amadu Mussa que a música em que é mencionado como alcunha para uma espécie de droga que tem deixado adolescentes e jovens cool que nem um djikindor embriagado é daquele estilo chamado de Batucada, contra o qual se levantaram as vozes que se acham de mais dignas da juventude e das academias que só há dias fiquei a saber que também existem em Bissau, uma terra com escolas públicas sempre enterradas em greves. Ele olha para mim e pergunta: Já ouviste a RENAJ a insurgir-se contra raptos e espancamentos de quem se opõe à ditadura em que vivemos; ou a juntar-se à luta dos estudantes? O que têm a dizer os académicos que abominam Batucada sobre a falta de perspectivas em que a criminosa política do nosso Estado tem deixado a juventude? E sobre as mulheres de Varela presas por se revoltarem contra a destruição das suas vidas e do futuro das suas aldeias? 

Antes de qualquer um de nós responder ao Amadu Mussa, ecoou de longe a batucada em que é mencionado como cobertor para uma espécie qualquer de ganza que nem sei se é de erva, farinha, líquido, se preta ou branca:

"Amadu Mussa 

Sakudi bunda no bai"

Nas nossas respostas, todos reconhecemos a legitimidade das questões que Amadu Mussa levantou. Mas fomos claros de que essas músicas não devem ser tocadas onde possam chegar aos ouvidos de crianças e adolescentes. Nem podemos concordar que o consumo das drogas cujas cores nem sabemos seja normalizado numa sociedade frágil como a nossa. Já nos basta a fama de narco-estado com tabaco de iran negociado no palácio, nos quartéis e nos ministérios. Muito menos podemos admitir que os putos andem a legalizar o bullying por colocarem às drogas nomes dos outros. Porém, quando Amadu Mussa nos disse que até um DG da Cultura considerou Batucada de "um flagelo social", como se os danos de Batucada à sociedade fossem comparáveis ao flagelo que é o regime que serve, todos nos levantámos em solidariedade com ele e ao ritmo da batucada. Sacudimos a poeira que nos manchava as calças na bunda e entramos no compasso. Foi como se estivéssemos a dizer ao Amadu Mussa para não acrescentar aos seus problemas existenciais a pressão oca dos falsos moralistas mais preocupados com a sua delinquência do que a de quem lhe tolhe a ele e aos seus niggas de estudar, de trabalhar e de ser gente como toda a boa gente. E cantamos em coro, dançando em imitação do conteúdo da música:

"Sakudi bunda no bai

Sakudi bunda no bai

Sakudi bunda no bai..." (ouve aqui a música)


Sumaila Djalo 


Comentários

  1. As vezes sinto pena das organizações juvenis, que várias vezes dizem ser representante da juventude, e por outro lado compactuando com o regime (quem cala consente).
    Há muito o que falar, se realmente querem representar a juventude (refiro-me a RENAJ), mas por serem cúmplices, surgem com críticas baratas e para desviar-nos do que realmente se deve falar

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