"Gosi ki ora di kanta tchiga" - um tributo ao Zé Maior em tempo de traição ao povo

 


"Gosi ki ora di kanta tchiga
Ninguin ka ten garganti" - José Carlos Schwarz (in Tchebendo)

Faz hoje 46 anos que o Zé Carlos (como é conhecido pelo povo, seu povo) não está fisicamente entre nós. Ele que aos 28 anos de idade já tinha conquistado um lugar na memória de um povo combatente pela sua liberdade, através de arte produzida na música e na poesia engajadas. 

Podia aqui recorrer a várias memórias publicadas dos que com ele partilharam momentos ou a referência fundamental que devemos à grande Moema Parente Augel sobre a sua vida e obra, justamente intitulada de "Hora di kanta tchiga" - 1997 - (É hora de cantar), para falar do homem que é, indiscutivelmente, o maior e melhor nome de sempre da música guineense. Mas não o faço, porque tal exercício tirava o foco que pretendo para esta breve nota de homenagem, mas sobretudo de protesto. 

Escrevo recordando do Zé Carlos num tempo em que músicos que convencidamente achávamos serem de "intervenção", no sentido de cantarem o povo, pelo povo e para o povo, se transformam em instrumentos de normalização da opressão do povo e de veículos de desculpabilização daqueles/as que são responsáveis por 43 anos do desnorte com os propósitos que moveram o Zé e os seus camaradas dos Cobiana Djazz a encontrarem na música uma ferramenta de mobilização para a gloriosa luta do nosso povo africano contra o colonialismo português. Músicos capazes de ter as suas canções de propaganda política a serem tocadas para três partidos políticos na mesma campanha eleitoral. Músicos que cantam "pubis diskunfia" ou "kusas ka sta nada bem", "fidjida" ou "objectivo i difindi Mama Guiné", que de repente se vendem ao ridículo de prestar serviços baratos ao regime mais violento e despreparado dos nossos 29 anos de eleições. Músicos que iludiram o povo com letras que os tornaram populares para logo a seguir participarem no banquete de "mama taco" do povo. 

A estes músicos traidores do princípio fundador do que alguns chamam da nossa música "moderna", uma música de combate de povo pelo povo e para o povo, de Kapa Negra, Sabá Miniambá, N'kassa Kobra aos Mama Djombo, a estes músicos, dizia, o Zé Carlos Schwarz deixa muitos recados em todas as suas canções sobre o papel que deveria ser de um artista num contexto em que "luta ka buli kaba inda", como alertou, das quais transcrevo dois trechos aqui:

"Gosi ku ora di kanta tchiga
Ninguim ka tem garganti" (Agora que chegou a hora de cantar / a ninguém restou a garganta)

E

"Pó, tudu tarda ki na tarda na mar
I ka ta bida lagartu
Kada kusa ku si kunsada
Ma i ta tem si fim
Son si Deus ka misti ki ka ta kaba" (Não importa o tempo que um tronco faz no mar / Nunca se transformará em crocodilo / Tudo tem um começo / e um fim / E só não acaba se Deus assim entender)

Assim como o nosso povo derrotou o colonialismo para ficar numa das páginas mais honrosas da História de África e do mundo, vencerá a luta pelo seu progresso, tarde ou cedo, e só quem o acompanha nessa luta ficará na História com dignidade: "Amanha Tio Bernal pudi fala / N paga nha kinhon deeee".

Sumaila Djalo 

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