É uma vitória do povo, mas incompleta
"Pubis ka buru / udju ta odja boka kala" - Zé Manel Fortes
As eleições legislativas do passado 4 de Junho, que culminaram com a atribuição de 54 assentos parlamentares à coligação PAI-Terra Ranka pelo povo, é, sem dúvida uma expressão do povo guineense contra os 3 anos do regime autoritário liderado por Umaro Sissoco Embaló, antigo Bolsonaro da África e actual Kim Jong-un da Guiné-Bissau. É uma expressão popular contra raptos, espancamentos e perseguições a figuras políticas da oposição e cidadãos que não se alinham na ditadura sanguinária com raízes ainda persistentes, porque o seu Único Chefe continua Presidente da República. É uma vitória de um povo que sempre soube interpretar os contextos em que é chamado a exercer o seu poderoso direito ao voto para as melhores escolhas possíveis entre várias opções pouco confiáveis, como demonstra a nossa experiência de 29 anos de eleições.
Os três anos da ditadura ainda vigente no nosso país constituem o período de maiores ameaças às liberdades democráticas e à boa conveniência entre os guineenses, pois para além de eliminação de quaisquer possibilidades de exercício das liberdades de expressão, de manifestação, de reuniões políticas e sindical, assistimos a escancarada instrumentalização de identidades étnicas e religiosas para fins eleitorais por parte dos principais protagonistas do regime. Ou seja, estamos perante uma ameaça real à continuidade do espírito de pluralidade que sempre caracterizou o povo guineense. Como tal, a minimização dos perigos que o regime ainda vigente representa dependerá sobretudo da nossa capacidade de remover o seu Único Chefe do poder.
Porém, como nos demonstrou no desfecho das eleições que o conduziram à presidência do país em 2020, Umaro Sissoco Embaló é criminoso e perigoso, mas não é ingénuo. Conhece bem as nossas fragilidades enquanto povo e sabe explorá-las a seu favor, quer através de investidas populistas, quer através de uso de violência estatal para semear medo nos seus adversários e conter qualquer oposição popular nas ruas. A sua aparição pública logo após o anúncio dos resultados eleitorais, ontem, primeiro para felicitar a coligação a quem o povo atribuiu a maioria absoluta e agora a se disponibilizar para um novo quadro de entendimento político, contrariando de repente todo um discurso prepotente de três anos; segundo, a saudar os cidadãos em manifestação na Praça dos Heróis Nacionais, facto que não acontecia desde que assaltou o poder a 27 de Fevereiro de 2020, inscrevem-se nessa lógica que procura agora iniciar um processo de higienização da sua imagem antes das eleições presidenciais previstas para daqui a um ano e meio.
Cientes desta jogada táctica do Umaro Sissoco Embaló, ao mesmo tempo que não podemos cair no seu engodo, porque seria ingenuidade de quem diz combater a sua ditadura, não nos podemos esquecer que o seu braço governamental só caiu porque factores complexos e sectores públicos heterogéneos se conjugaram para o êxito até recentemente inesperado para muitos de nós. Aliás, tanto eu que escrevo estas linhas hoje como muitos dos diversos sectores opostos ao regime só começamos a acreditar na possibilidade de as eleições puderem servir para enfraquecer o regime do Sissoco após o sinal claro dado nesse sentido pelo povo durante a campanha eleitoral. Por isso, continuar a combater o ditador neste momento requer não só evitar o erro de menosprezar a sua inteligência política nociva, mas evitar leituras centradas na lógica de imposição de agendas e modelos de combate baseados num ângulo dogmático muitas vezes distantes da realidade concreta da nossa luta.
Ao mesmo tempo que o próximo governo a ser constituído deve ser chamado à consciência da urgente missão de restituir as liberdades democráticas ao povo, de baixar os preços dos produtos da primeira necessidade, de garantir as retomas de funcionamento das escolas e hospitais públicos, etc., será preciso sermos realistas na construção do entendimento de que qualquer erro táctico de quem combate o Umaro Sissoco Embaló, quer no quadro do próximo executivo, quer noutros planos de mobilização, será por ele usado como vantagem para aplicar uma virada no cenário e garantir não apenas a sua continuidade na presidência, mas o regressos dos seus braços partidários à governação do país, ainda que usando meios anti-democráticos.
Não se pode acreditar numa unidade sem construir confiança em quem está do nosso lado, muito menos em leituras preconcebidas tempestivamente fora dos principais condicionantes do nosso contexto de luta, lembrando ainda que sermos realistas nesta fase da nossa luta contra o sistema é também termos a consciência de que, não podendo assumir as rédeas do poder agora, a alternativa é garantir que aqueles que na sua disputa se colocam mais próximos das nossas demandas de salvação urgente da nossa democracia sejam tacticamente encarados como aliados.
Sumaila Djalo

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