Contem comigo, mas para continuar a combater o sistema

"Buli ku kustuma balansa, nim si bentu ka tem, i ta balansa so" - ditado popular guineense 

No combate à ditadura sanguinária do Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló, até aqui, posicionava-me ao lado do PAIGC (doravante PAI-Terra Ranka), mesmo havendo largas diferenças políticas entre nós. Não preciso de repetir aqui as razões da minha oposição convicta ao que o PAIGC é hoje, enquanto partido político. O que quero afirmar é que, ao assinar um acordo de incidência parlamentar com o PTG (pseudo-Partido dos Trabalhadores Guineenses), liderado pelo principal agente da ditadura instalada na Guiné-Bissau, que comandou os raptos, os espancamentos e as perseguições políticas que aconteceram durante os últimos três anos e meio, a PAI-TR passa a comprar os seguintes problemas com a causa da defesa das liberdades democráticas no nosso país:

1. O primeiro significado desse acordo é o facto de, a partir de hoje, a PAI-TR não ter moral, nem legitimidade, de falar dos raptos, dos espancamentos e das perseguições aos sectores políticos e sociais que não se alinham na ditadura sanguinária instalada no país desde 27 de Fevereiro de 2020. Com este acto, a PAI-TR demonstra claramente não estar interessada a trabalhar para a responsabilização judicial dos actores morais e materiais do terrorismo praticado pelo Estado ao longo destes mais de três anos, para além de ser revelador de uma gritante falta de compromisso com a defesa das liberdades democráticas na Guiné-Bissau. 

2. Sendo Botche Candé e o PTG instrumentos do ditador Umaro Sissoco Embaló, a aliança com a PAI-TR sinaliza que a coligação está disposta a conciliar-se com o Único Chefe, bastando que este lhe deixe formar um governo e retomar os seus assentos de saque do erário público, esquecendo-se de todas as atrocidades cometidas pelo regime autoritário sancionado pelo povo guineense nas urnas. 

3. Esta escolha da PAI-TR ainda explica por que a sua direcção nunca quis assumir uma mobilização política para combate frontal à ditadura instalada no país. A PAI-TR só não está com Umaro Sissoco Embaló porque este não lhe tinha permitido governar. Aliás, convém lembrar que tal só não aconteceu em 2022 porque o Único Chefe não se entendeu com a liderança do PAIGC nos moldes em que este entraria no processo de governação a terminar.

4. A PAI-TR fez uma escolha contra um importante sector social que nele votou nas últimas eleições legislativas: jovens. Esmagadora maioria deste sector votou na PAI-TR como forma de expressar a sua revolta com uma ditadura que não foi capaz de colocar as escolas públicas a funcionar e impediu organizações estudantis de se mobilizarem para qualquer forma de protesto, através do Ministério do Interior, tutelado durante três anos por Botche Candé. Desta forma, a PAI-TR alimenta aqui uma poderosa corrente de oposição ao seu próximo governo. 

5. A partir de agora, qualquer rapto e espancamento de um cidadão guineense que se opõem ao Umaro Sissoco Embaló ou até ao governo da PAI-TR será da responsabilidade desta, porque passará a ser responsável pela segurança pública, um dos motivos de os eleitores guineenses terem votado contra os partidos políticos que acompanharam Umaro Sissoco Embaló na sua ditadura nestes três anos e meio. Está claro que a milícia do Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló continuará a praticar actos de terrorismo contra quem se lhe opõe. A diferença agora será a responsabilidade que quem governa, a PAI-TR, terá para acabar com esses actos. 

Não me interessa aqui discutir a justificação oca e demagógica da PAI-TR para esta aliança, muito menos perco tempo em lembrar das vezes que o PAIGC, liderado por Domingos Simões Pereira, foi alvo do botchecandismo nos últimos nove anos. Mas afirmo uma posição que partilho com muitos companheiros de luta. A partir de hoje, enquanto cidadão comprometido com os valores da democracia e liberdade, limito-me à minha circunscrição política, longe de qualquer agenda oportunista, que para ter acesso ao poder tudo lhe faz sentido. Continuarei na trincheira a que sempre pertenci: a de combate à qualquer entidade que queira impedir o progresso da Guiné-Bissau e, sobretudo, impedir os guineenses que não lhes sejam coniventes de viver livre no país que é também deles. 

Sumaila Djalo

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