Crónica de uma LUZ apagada antes de ser acesa
Desde a criação do Partido Luz da Guiné-Bissau (PLGB), em 2022, muitas foram as pessoas que me perguntaram o que penso desta nova formação política. Compreendia essas perguntas em dois sentidos. Primeiro, o meu activismo e militância pelo progresso da Guiné-Bissau é constante e de um cunho intereventivo também alimentado pelas minhas opiniões publicadas. Segundo, porque tinha a noção de que, em casos semelhantes de criação de partidos políticos, não tinha levado tanto tempo para dizer publicamente o que pensava deles. No entanto, eu tinha a consciência de que se tratava de um partido craiado por pessoas com quem cheguei de partilhar trincheira, nomeadamente no combate ao jomavismo, através do Movimento dos Cidadãos Conscientes e Inconformados (MCCI) e que, apesar de nos termos desvinculado dessa organização e de cada um seguir o seu rumo, mantínhamos uma relação de cordialidade.
Preferia deixar que o partido provasse que vinha, de facto, marcar "diferença em relação à forma habitual de fazer política na Guiné-Bissau" e que a sua agenda colocava "a juventude guineense, cerca de 60% da população, no centro" das suas preocupações. Estes eram (e continuam a ser) os dois grandes trunfos apresentados pelos dirigentes do PLGB como marcas do seu partido. Em menos de um ano da sua criação, o PLGB já participou numa eleição legislativa, onde não obteve qualquer assento parlamentar, e hoje o seu líder é membro do Conselho do Estado da Guiné-Bissau, por conta de uma nomeação do Umaro Sissoco Embaló, presidente da República. Portanto, é hora de falar do PLGB!
Olhando para os dez meses da existência do PLGB, duas perguntas me ocorrem: 1) Que diferenças existem entre ele e os principais partidos políticos que configuram o sistema político que tem desgovernado a Guiné-Bissau durante, pelo menos, os últimos 43 anos? 2) Como é que as acções do PLGB têm concretizado a sua preocupação com a juventude guineense, que os seus dirigentes dizem ser a sua prioridade? Tenhamos paciência de acompanhar as respostas que se seguem para cada uma destas questões, porque é importante alguma serenidade quando pisamos terrenos populistas. Geralmente, esses terrenos estão cheios de demagogia, aproveitamentos desavergonhados e infindáveis mecanismos de manipulação. Desmontemo-los!
Qualquer partido político que queira ser diferente de PAIGC, PRS, MADEM G-15, RGB-Movimento Bafatá, União para Mudança, PCD, PUSD, FLING, ou APU-PDGB (para citar só os que de facto estiveram na danosa gestão política do país, quer através de representação parlamentar, quer através de participação na governação) tem de, antes de tudo, romper com a lógica de fazer política a que estes partidos tradicionais nos habituaram. E qual é essa lógica? Clientelismo, compadrio, corrupção, roubo, crimes de sangue, entre outros males conhecidos por qualquer guineense que não esteja a viver na lua. Depois, há uma questão básica, a de que nenhum partido político pode ser diferente, na ideologia e na acção, de quem escolhe fazer o seu principal aliado. Aliás, alianças políticas são baseadas numa lógica bem traduzida por um dito popular guineense: "Katchus ku parsi ku ta ndianta". Pois bem, um pintainho nunca aprenderia a levantar voo ao lado de um falcão, porque sabe qual seria o seu destino se se atraver a praticar tal ingenuidade.
Como pode o PLGB convencer-nos que seja "diferente dos mesmos de sempre", se os seus dirigentes justificam, publicamente, a sua aliança com Umaro Sissoco Embaló, o ditador-mor, através de uma comparação das alianças da PAI-TR, coligação vencedora das últimas eleições legislativas, com o PTG e o PRS, que, de facto, faziam parte do governo de raptos e espancamentos do Umaro Sissoco Embaló nos últimos três anos e meio? Ou seja, o PLGB quer ser diferente do PAIGC, mas o argumento que encontra para justificar a sua inscrição na mais retrógrada versão do sistema criado pelo PAIGC é uma espécie de "se os outros podem praticar o clientelismo, nós também o podemos fazer". Que patido tão diferente!!!
Muitos dirigentes do PLGB estiveram, até 2020, na linha de frente de protestos em defesa das liberdades democráticas na Guiné-Bissau. Lutaram contra um regime que, entre 2017 e 2018, tinha um Primeiro-ministro que não tolerava qualquer manifestação, um direito Constitucional básico. Esse PM chamava-se Umaro Sissoco Embaló, o mesmo que, enquanto PR e chefe de um governo da sua iniciativa, encabeçou um dos o mais violentos regimes políticos da Guiné-Bissau. O "ser diferente" para os dirigentes do PLGB é juntar-se a uma família política anti-democrática e intolerante ao exercício de liberdades fundamentais, como são as liberdades de expressão, de imprensa, de manifestação, de opinião, de reunião? Que "conveniência política", emprestando a expressão do líder do PLGB, justifica ignorar todos estes ataques praticados contra a democracia guineense por parte do Umaro Sissoco Embaló, seu principal aliado político? Com o JOMAV, eu e os líderes do PLGB conseguíamos, pelo menos, marchar em defesa da democracia e do que pensamos sobre o nosso país, uma conquista retraída pela ditadura do Umaro Sissoco Embaló. Não olham para esta realidade, ou também não é da sua "conveniência política"?
E a juventude, a tal "prioridade do PLGB" , onde entra nesta equação política por "conveniência" praticada pelos seus dirigentes? Como tenho dito, a melhor forma de estar pela juventude guineense é lutar ao seu lado (não lutar por ela) para ter acesso à educação e formação de qualidade, condição básica para qualquer progresso na sua vida. Ora, entre 2019 e 2022 a população guineense em idade escolar viu-se simplesmente impedida de frequentar a escola. Porquê? Porque a antiga e a actual famílias políticas dos dirigentes do PLGB, nomeadamente o PAIGC e o MADEM G-15 do Umaro Sissoco Embaló, foram incapazes de responder às legítimas reivindicações dos professores das escolas públicas guineenses. O desatre do ano lectivo 2019/2020 foi herdado pelo governo do Umaro Sissoco Embaló das mãos do governo do PAIGC. Nos dois anos lectivos seguintes, o governo era do Umaro Sissoco Embaló e a sua corja, repita-se, aqueles a que se junta o PLGB na sua extraordinária forma de "ser diferente". Diferente em quê?!
Recentemente, o líder do PLGB foi nomeado por Umaro Sissoco Embaló para fazer parte do Conselho do Estado da Guiné-Bissau. Não tenho pachorra de voltar aqui para toda a encenação pública que culminou com essa nomeação, desde a ruptura dos dirigentes do PLGB com o seu antigo partido, PAIGC, até ao seu novo casamento com o ditador-mor. Mas olhemos para a forma como essa nomeação está a ser vendida pelo PLGB e seu líder, numa escancarada tentativa de instrumentalização da questão da "juventude" para ocultar um acto de clientelismo que apenas e só confirma uma aliança com a facção mais obsoleta do sistema político de que dizem ser diferentes, mas fazendo parte da grande máquina que o alimenta.
Numa publicação nas redes sociais, em que tenta resumir a sua biografia, o presidente do PLGB conta o seu percurso BRILHANTE, mas omite a passagem pelas estruturas do PAIGC e a experiência no conselho de administração de uma empresa estatal por conta da nomeação de um governo do seu antigo partido. Porque será? O que não lhe orgulha dessa experiência? Depois, surgem outros panfletos populistas em que se apresenta a sua nomeação pelo Sissoco como sendo "histórica", porque "é o mais jovem membro do Conselho do Estado". Não tenho tempo aqui para discutir o limite de ser jovem na Guiné-Bissau. Mas faço uma pergunta: o que a nomeação de um suposto jovem muda na condição da juventude guineense, se quem diz representá-lo passa a vida a projectar a sua própria imagem, num constante baile que se recusa a estar ao lado da juventude guineense quando esta mais precisar?
Sim, em 2019, quando o governo do PAIGC não conseguia meter as escolas a funcionar, maior parte dos dirigentes do PLGB assistiram, impávidos, às reivindicações dos movimentos estudantis em Bissau. Outros até desencadearam actos de sabotagem nos bastidores, porque esses protestos não lhes eram "convenientes". De 2020 a 2022, metidos em disputas no seu antigo partido, PAIGC, o que fizeram publicamente para a juventude que tanto defendem e que tinham ficado mais dois anos lectivos sem estudar?! Enquanto o líder do PLGB vai no seu segundo emprego dado pelo sistema de que o seu partido queria ser diferente, segundo os dados oficiais, cerca de 51% da população guineense em idade activa (jovens) estão desempregados. Ou seja, 51% dos 60% em que se sustenta a propaganda populista do PLGB estão sem emprego. O que é que o PLGB pensa sobre esta situação, se é que conhece estes dados, ou basta o orgulho de o seu líder ser "o mais jovem membro do Conselho do Estado na história da Guiné-Bissau"?
Ainda que passem o tempo a pregar o sermão de que seja necessário "discutir o país e não pessoas", o PLGB demontra todos os dias estar a reproduzir o culto de personalidade que têm criticado, mas aprendido, e bem, no seu antigo partido, o PAIGC. Não, um partido que quer representar a juventude não pode gravitar em torno de uma liderança centrada numa pessoa, muito menos usaria a identidade da juventude para alimentar agendas pessoais e narcisistas. A própria juventude guineense, de que faço parte pela idade, e talvez apenas pela idade, não devia admitir que seja usada por qualquer interesse aliado àqueles que a têm roubado a esperança. Não podemos admitir que a juventude seja usada como esponja para higienização da ditadura do Umaro Sissoco Embaló antes das próximas eleições presidenciais. A juventude guineense deve, sim, mobilizar-se para derrotar o ditador e resgatar a possibilidade de construção de uma sociedade democrática, onde ninguém será raptado, espancado até perto da morte, muito menos perseguido por conta de pensar e agir diferente.
Nas suas intervenções públicas e na sua aliança com Umaro Sissoco Embaló, o PLGB não só demonstra que não se desapegou do celeuma provocado pela forma como os seus dirigentes saíram do PAIGC, bem como têm comprovado que de diferente dos partidos políticos que configuram o sistema só têm o nome e o símbolo, cuja luz estaria hoje apagada, se não fosse uma representação simbólica de uma lâmpada acesa. Daqui para frente, o PLGB pode ter os seus dirigentes nomeados para cargos mais altos de governação e do Estado, mas nunca passarão de mais uma organização alinhada com o sistema produtor da desgraça em que vivemos.
Por fim, deixo uma mensagem a quem venha a cair na vitimização característica aos discursos dos dirigentes do PLGB: para mim, a Guiné-Bissau é uma causa que ultrapassa qualquer relação pessoal, sobretudo quando esta é minada de interesses que queiram colocar a nossa vida colectiva em causa. Recuso-me a qualquer cumplicidade com aqueles que constroem o seu conforto sobre a nossa desgraça colectiva. Se vos disserem que seja por inveja, digam-lhes que só era capaz de sentir inveja de quem se compromete mais com as causas de liberdade, justiça social e luta contra o sistema sem tréguas. Se vos disserem ainda que seja a defender um dos interesses instalados pelo sistema podre que nos tem massacrado há 43 anos, disso eles mesmos responderão por mim.
Sumaila Djalo

O PLGB, não representa nem a juventude e o povo da Guiné-Bissau de forma que está a caminhar e afiliar com o regime ditador que não pensa pelo bem da população, mas sim, do seu interesse e dos seus colaboradores.
ResponderEliminarSe a bajulação é prioridade deles, agirão assim, estando longe de representar e defender a juventude guineense. Triste!
ResponderEliminarÉ difícil pedir a um líder de um partido político coerência.
ResponderEliminarPorque ou não é político, ou se o for, tem que quase obrigatoriamente ter origem em países escandinavos, bem a norte da Europa quase a chegar a um dos polos.
Por outro lado, um político precisa de câmaras, holofotes e microfones como um cego precisa de vista, caso contrário desaparece de cena, isto não falando claro, que precisam para sobreviver naquele meio, daquilo com que se compram os melões, como se diz por cá, e por lá serão as mangas, as melancias, o fole, as laranjas, etc.
Ou então precisa de ter coluna vertebral, algo bastante raro de se encontrar na maioria dos políticos e aspirantes a tal, que preferem rastejar na busca do tal tacho que lhe pague os vícios e os mantenham ligados á máquina do aparelho político.
O que normalmente não tem e seria bom que tivesse era a qualidade de ser inteligente, carismático, racional, pragmático, patriota, de fazer a diferença na boa e salutar arte de apresentar e defender projetos para o desenvolvimento social e económico do país.
Não se vislumbram estas características na maioria dos políticos que mandam e desmandam no país, mas eu acredito que eles existem, e outros ainda, que não fazendo parte desse mundo muito apodrecido, poderão a curto e médio prazo alterar o paradigma governativo da Guiné-Bissau!
Não é a coerência que me preocupa mais nesta questão. Eu não sou apegado à coerência porque tenho noção de haver momentos em que devemos ser, como diz o Professor Paulo Freire, incoerentemente coerentes. Eu costumo dar um exemplo: se me puderes a escolher entre DSP e USE para o cargo do PR, escolho o primeiro. Não porque ache que ele seja assim tão Messias como é tido pelas suas hostes, mas porque é evidente que seja mais fácil retomar um caminho de lutas pela democratização. A minha preocupação é a forma como as pessoas se fazem de capazes para construir as suas vidas à custa do sofrimento de um povo, manipulado agendas e aproveitando de causas. É isto que me recuso a aceitar.
ResponderEliminarUm abraço e mantenha!