Lanta di koba pa no barsau, Kumandanti! - uma saudação cantada ao centenário

 

[Não conheço a autoria desta fotografia]


Sangui ku bai, sangui ku bin
La na Conacri Cabral ié lá
Sangui na tchon, fama na mundu
Cabral i balanta!
An dunia! Cabral i balanta! (Mama Djombo)

Camarada Kumandanti,

Escreve-te um companheiro de luta em tempos opostos, tempos em que, na verdade, a luta está a exigir de nós mais intensidade e mais consequência. A luta pelo progresso do nosso povo africano, à disposição da qual colocaste toda a tua disponibilidade e capacidade. Não escrevo para celebrar a tua "fama" espalhada pelo mundo, porque, enquanto revolucionário de gema, jamais seria por notoriedade ou por qualquer projecção pessoal que darias a tua vida pela nossa causa de libertação do jugo colonial. Escrevo, cantando, para celebrar a tua vida, a tua imortalidade inequívoca, num dia em que faz 51 anos desde que os traidores do nosso povo e da nossa revolução eliminaram a tua existência física, pois, como musicou o djidiu da nossa revolução: "E mata Cabral, pa ganha gera / Cabral gora, i ka ta muri". 

Camarada Amílcar,

A tua eliminação física minou o caminho da nossa revolução e em 1980 começou-se o movimento para o seu longo adiamento. São 43 anos de traição à nossa história, iniciada por aqueles e aquelas que outrora te chamavam de 'camarada'. Quatro décadas de opressão ao povo que tu e o Partido organizaram para a luta heróica que nos conduziu à independência. Hoje, até se dão à vã tentativa de apagar o teu legado, assassinar o teu nome no mapa da nossa história, tal como assassinaram o teu corpo. Mas eles não sabem que tu ganhaste, no teu tempo, todas as guerras que serão travadas contra o teu legado revolucionário, que ultrapasa quaisquer limites estabelecidos à base de ignorância e conspiração. 

Ka no kunfundi nomi di Cabral
ku nomi di oportunistas!
No ka na seta!
Ka no kunfundi nomi di Cabral 
ku nomi di saboterus!
No ka na seta! (N'kassa Cobra)

Àqueles que na sua ignorante arrogância se auto-proclamam de terem dado democracia aos nossos povos, na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, procurando assim subestimar a heróica luta do nosso povo pela sua independência, cabe-nos o dever de lembrar-lhes de que, qualquer que seja democracia, mesmo esta baseada na lógica de exploração capitalista, tem na LIBERDADE o seu principal valor. E a liberdade, esta que hoje gritamos de punhos cerrados, ou mãos no peito, nasceu da luta que lideraste, da Assembleia Nacional Popular que, em Boé, proclamou 24 de Setembro como dia da nossa libertação, na Guiné-Bissau, e abriu portas para o 5 de Julho ser "kaminhu abertu pa filisidadi" em Cabo Verde. 

Labanta brasu bu grita bu liberdadi (4x)
Grita: povu indipendenti! (2x)
Grita: povu libertadu! (2x) (Alcides Brito)

Kumandanti,

Não me desculpo por ainda não tomarmos a direcção da revolução nas nossas mãos. Nem estou preocupado em saber o que estarás a pensar sobre isso, porque sei que tu sabes quão exigente é o caminho para autêntica revolução. Não fosses quem nos ensinou a "pensar para melhor agir e agir para melhor pensar", ou ainda a reconhecermos que a nossa luta, também hoje, precisa de ser fundada na "compreensão profunda da nossa realidade concreta". Pois bem, camarada Cabral, não te garanto na primeira pessoa de que farei a revolução sozinho, porque seria estúpido essa assumpção, nem te vou assegurar que a revolução venha a acontecer numa data fixada. A minha esperança (do esperançar, porque ainda que a passos lentos continuamos a caminhar), a minha convicção (porque não há revolução sem consciência sobre a sua necessidade), reside no facto de que continuas a ser o principal ideólogo de qualquer sementeira revolucionária que venha a ser largada na nossa terra. É tal como cantam os nossos Tabanka Djaz:

Anos no ka na para
nin no ka na kaba 
Otcha Cabral kai utru firma (2x)
Utrus na bin inda
pa ka mon bin moli, na kebur di amanha
ta kontra mare di fomi laga moransa! (2x)

Levanta-te, Kumandanti! Ajeita o teu sumbia e os teus óculos, sorri para nós como que a autenticar o nosso selo de esperança e confiança no progresso que havemos-de construir na nossa terra, com o nosso povo. Não o faças para voltar fisicamente, porque ainda abririam fogo sobre ti os mesmos que o fizeram e o mandaram fazer naquela noite em Conacri, sem saber que jamais serão capazes de eliminar a veia dinâmica do teu pensamento, o conceito que emana do teu nome e dos teus ideais, mais do que a fragilidade de um corpo humano. Não será para te elevar ao patamar do Divino. Será somente para te abraçar, celebrar a tua vida no dia em que pensaram, enganados na sua ignorância, que finalmente se livravam do teu humanismo, com o qual regamos as nossas consciências hoje para a luta que havemos-de vencer. E cantarmos: 

Pa tudu kusa ki pasa nes mundu
No dibi di pui mon riba, no gardisi Deus
Ermons!
No djunta tudu na un mon
No girta ku tudu forsa:
'Cabral, Cabral, lanta di koba pa no barsau! (Sidó)

Sumaila Djalo 







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