Idriça Djalo deixou de chamar os bois pelo nome
Assisti à conferência de imprensa protagonizada ontem, 23 de Fevereiro, por Idriça Djalo, presidente do PUN, depois de muito tempo em auto-silêncio, reproduzindo a palavra por ele usada na sua comunicação. Deixo aqui algumas notas sobre os 35 minutos do que ouvi atentamente e acho pertinentes para a reflexão a que Idriça nos convida sobre o nosso país:
1. Idriça Djalo caracteriza o sistema político guineense de "doente", sendo este o motivo das constantes crises políticas no nosso país. A diferença com o que penso está no facto de eu considerar o mesmo sistema político de obsoleto, porque os seus agentes já demonstraram, suficientemente, serem incapazes de resolver os mais básicos problemas com que o povo guineense se defronta. A solução proposta pelo presidente do PUN é a que já conhecemos: criar um fórum para diagnosticar as raízes da doença de que fala e encontrarem-se soluções estruturais.
Não vou discutir esta proposta de solução aqui, porque não terei espaço para tal. Idriça Djalo propõe a reforma de um sistema político "doente" e eu proponho a morte de um sistema político obsoleto. Discutir as nuances desta diferença de visões entre nós é matéria para outra abordagem. Porém, afirmo: o facto de o sistema político estar doente, como considera Idriça, ou ser obsoleto, como digo, não nos deve induzir a assumir posições neutrais que não nomeiam os problemas presentes e denunciar os seus responsáveis. Falo de um contexto em que a ANP não funciona por consequência de um decreto contra-constitucional e há um governo instituído à força por um indivíduo. Essa pessoa tem nome. O seu nome não é Sistema. É Umaro Sissoco Embaló, que assinou o decreto legalmente inexistente a dissolver o parlamento e afirma sem rodeios de que o governo em funções seja dele e só a ele responde.
2. Idriça Djalo iniciou a conferência de imprensa a lembrar o desastre que foi a campanha de castanha de caju em 2023, com consequências graves para a sobrevivência da maior parte das famílias guineenses, camponesas, que dependem da comercialização deste produto para a sua subsistência. Mas com consequências também para a economia nacional fortemente dependente da castanha de caju. E alerta o que chama de "autoridades nacionais" (que na verdade é um governo ilegal e golpista) para o perigo da repetição do mesmo desastre na campanha de comercialização de castanha de caju a poucos meses de começar.
Duas notas sobre esta questão. Primeiro, o fracasso da comercialização de castanha de caju em 2023 deveu-se, em parte, pela baixa de preço no mercado internacional, mas também por incompetência de um executivo igualmente de iniciativa presidencial, portanto, ilegal. Esse presidente tem nome. O seu nome não é todo o sistema político. É Umaro Sissoco Embaló. Segundo, se a próxima campanha de comercialização de castanha de caju fracassar, a responsabilidade será exclusivamente do governo ilegal e golpista em funções, que responde só ao Umaro Sissoco Embaló, como o próprio nos tem lembrado.
3. Idriça Djalo lamenta o facto de haver quem procure desculpar o uso indevido de 6 biliões de FCFA pelo governo da PAI-TR para, supostamente, pagar dívidas a alguns empresários nacionais, incluindo figuras da sua família política, pelo facto de o governo que lhe antecedeu ter usado 9 biliões de FCFA para os mesmos fins com empresários afectos aos partidos que formavam o governo.
Concordo com Idriça de que um mal do presente não se pode desculpar por um mal do passado. Mas há uma questão relevante que Idriça não aborda, nem de passagem. No caso dos 6 biliões, sem instauração de qualquer processo investigativo que fosse conduzido para a justiça, tiraram-se as conclusões que levaram a prisões ilegais do Ministro das Finanças e seu SE de Tesouro, encenou-se uma mentirosa situação de tentativa de golpe de Estado para possibilitar a dissolução contra-constitucional da ANP e, subsequentemente, instituir um quadro governativo conveniente a uma pessoa com nome: Umaro Sissoco Embaló. Meses antes, ou mesmo agora, o que se fez/tem feito sobre os 9 biliões usados pelo governo da iniciativa do Umaro Sissoco Embaló para os mesmos fins? Nada, a não ser reconduzir o mesmo Ministro das Finanças que esteve à testa deste caso, de nome Ilídio Vieira Té, para as mesmas funções.
4. Idriça Djalo ainda chama atenção para o perigo à nossa vista quando admitimos que as nossas identidades étnicas e religiosas sejam instrumentalizadas para fins políticos. Concordo. Mas Idriça escolhe um exemplo generalista, que evita nomear as responsabilidades, para explicar a situação. É importante que ele tenha lembrado de ser fula, como o falecido Iaia Djalo, mas juntos estiveram ao lado do Domingos Simões Pereira, que não é fula, para o combate ao JOMAV e nas passadas eleições presidenciais. Sobretudo para desarmar as fobias que têm sido alimentadas neste sentido do lado do PAIGC. Assim como lembra, e bem, que foram Nuno Nabiam, Alberto Nambeia, JOMAV e Braima Camará, nenhum deles fulas, os que ajudaram a fazer do Umaro Sissoco Embaló PR.
Mas esta abordagem esconde o facto de existir, entre as lideranças políticas que Idriça Djalo nomeia, um sujeito que responde pelo nome de Umaro Sissoco Embaló e que, durante a campanha eleitoral para as presidenciais de 2019, se apresentava em público com um distintivo de comunidades guineenses islamizadas, simbolizado no uso de kaalá, como forma de apelar ao voto religioso. Não, aquilo não era inocente. Havia uma intenção populista atrás e Idriça sabe-o. Foi a mesma pessoa, de nome Umaro Sissoco Embaló e não Sistema, que ia para as vilas de fulas cantar "Ankala yidan hôremá", apelando ao voto étnico, assim como afirmou, várias vezes e publicamente, bastarem os fulas e muçulmanos guineenses para o colocarem na Presidência da República. E mais, quem, na conjuntura em que debato com Idriça Djalo, instituiu uma mesquita na Presidência de uma República laica, tem nome: Umaro Sissoco Embaló. Malam Bacai Sanha não o fez. Serifo Nhamadjo idem. E olha que ambos são, de longe, mais religiosos do que Umaro Sissoco Embaló.
5. Concordo com Idriça Djalo quando falou da falta de autoridade moral do MADEM G-15, PRS e APU-PDGB em falarem da ditadura a ser perpetrada por Umaro Sissoco Embaló e de afirmarem estar a lutar pela afirmação do estado de direito e democrático na Guiné-Bissau. Estou de acordo porque esses partidos ainda continuam atrás do Umaro Sissoco Embaló na subversão da ordem Constitucional para o fortalecimento da sua ditadura. E não será com discursos demagogos que nos vão convencer que estejam finalmente dispostos a fazer frente ao ditador que ajudaram a chegar ao poder. Quando é que vão retirar a confiança política ao Umaro Sissoco Embaló? Quando é que se retiram do seu governo golpista? E quando é que exigirão ao Sissoco a restauração da ordem Constitucional e democrática na Guiné-Bissau?
No entanto, o próprio Idriça Djalo, repito, não fala da dissolução contra-constitucional da ANP, nem fala do governo ilegal e golpista do Umaro Sissoco Embaló, tão pouco do assalto ao Supremo Tribunal de Justiça por parte das forças a mando do mesmo Umaro Sissoco Embaló. Idriça Djalo de utros tempos denunciaria as doenças do sistema de que sempre falou, e bem, apesar de eu chamá-lo de outra coisa; apontaria para as soluções estruturais que ele pensa poderem funcionar melhor para arrancar a Guiné-Bissau da situação em que se encontra; mas não se colocaria numa posição neutral face a uma escancarada ditadura de Umaro Sissoco Embaló. E não seria para agradar, nem andar a reboque do PAIGC ou quem quer que seja. Seria para afirmar o seu compromisso com os valores de liberdade e de democracia. Seria para ser igual ao Idriça Djalo que me fez votar pela segunda vez (o primeiro foi Paulo Gomes em 2014) numas eleições na Guiné-Bissau e que um dia mereceu o meu apoio político incondicional, não por termos o mesmo apelido, mas porque se demonstrava comprometido com os valores e princípios democráticos.
Sumaila Djalo

Custa perceber como as vozes Guineenses que vão aparecendo com ideias e projetos carregados de força, capacidade, esperança, inovação, diferença, patriotismo e sentido de estado, desapareçam numa mordaça que transparece medo, e nalguns casos, mais triste ainda, se transforma em subserviência e prostituição política, como infelizmente tem acontecido com alguns jovens Guineenses, o que torna este vírus mais perigoso, porque pode ser passível de contágio.
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