Crónica da nossa mufunesa colectiva

 

Foto: Através do Facebook de Nuno Nabiam 

*mufunesa: azar, desgraça...

Em Outubro de 2023, com a legislatura fundada nas eleições de Junho apenas no começo, alertei para as estratégias de caos do Umaro Sissoco Embaló, com vista a ludibriar a pesada derrota da sua família política nessas eleições e pavimentar o caminho para a sua reeleição nas presidenciais que deviam ser em Novembro deste ano, mas que ele já disse que só acontecerão em Novembro de 2025. Ou seja, o ditadorzeco quer permanecer no poder mais um ano depois do tempo estabelecido pela Constituição da República da Guiné-Bissau. Se olharmos pela lógica dos desmandos e usurpações que tem praticado até aqui, podemos prever que tal venha a acontecer, que o nosso Kim Jon-Un, como gosta de ser chamado, permanece na Presidência da República a seu belo prazer e nem uma palha se vai mexer, porque os que se dizem opositores do seu absolutismo nada mais do que seus cúmplices têm sido, alguns por acção (MADEM G-15, PRS e APU-PDGB) e uma por omissão (PAI-TR). 

Naquela altura, alertei para o erro que a PAI-TR estava a cometer ao deixar-se embalar por discursos demagogos do Sissoco a apelar pela "trégua" e "enterrar dos machados de guerra". Sissoco sabia que a maioria absoluta que a PAI-TR conquistou nas últimas legislativas era revelação da fúria do povo contra o absolutismo sanguinário por ele encabeçado. Precisava de tempo para baixar os ânimos do povo e actuar no momento certo para inviabilizar o processo governativo que nunca admitiria organizar as próximas eleições presidenciais. 

Esse momento começou com o MADEM G-15 a apelar para a dissolução do parlamento apenas um mês depois de o novo governo ter tomado posse. Seguiram-se depois as conferências de imprensa da APU-PDGB e dos putos do PLGB a agitar a opinião pública com encenação de uma falsa crise institucional entre a ANP e o seu patrão, Umaro Sissoco, para justificar a dissolução do parlamento, que veio a acontecer em Dezembro de 2023. O PRS disse na altura ter tomado "boa nota" do acto contra-constitucional do Sissoco e o PTG rematou com uma metáfora característica do barato que é o seu líder, Botche Candé, o mais volátil peão do sistema político guineense corrupto e clientelista, que assumia desta forma a sua anuência a um decreto flagrantemente contra-constitucional: "Então se o marido falecer o casamento com a esposa não acaba?". Ou seja, tanto o MADEM G-15, cujo líder tem cantado agora estar a lutar pela liberdade e legalidade democrática, como o PRS e APU-PDGB, reunidos numa aliança que chamam de "Kumba Lanta" e dizem não admitir absolutismo na Guiné-Bissau, tiveram papéis activos na subversão da ordem Constitucional que nos trouxe ao estado actual da desgovernação em que o nosso povo é obrigado a sobreviver. 

Porém, é preciso analisarmos bem as novas cantigas de embalar do MADEM G-15, do PRS e da APU-PDGB, mas também o silêncio cobarde da PAI-TR, para compreendemos a nossa desgraça enquanto povo, infelizmente ainda assistentes de um espectáculo de brincar com as nossas vidas. 

Como disse na opinião citada logo a abrir este texto, Umaro Sissoco Embaló tem uma estratégia para lidar com cada uma destas formações políticas no seu caminho à procura de renovar o seu mandato. O método é o de costume: quando não consegue submeter todos às suas ordens, divide para melhor reinar. No MADEM G-15, não parecendo nada fácil resolver o seu conflito com o Braima Camará, o principal arquitecto da sua intronização, já avançou com as primeiras acções para acentuar a crise interna no movimento político que ajudou a criar. Sandji Fati e José Carlos Macedo são os principais rostos dessa frente que visa semear discórdia no seio do partido. O objectivo é, por um lado, fragilizá-lo ao ponto de não conseguir fazer frente ao ditadorzeco nas próximas presidenciais e, por outro, sacar das suas estruturas algumas figuras que lhe acompanhem nas presidenciais. Ainda joga a seu favor o facto de ter altos dirigentes do MADEM G-15 no seu governo golpista e, assim, tê-los sob controle pelo menos enquanto durar este quadro governativo. 

A direcção do MADEM G-15, liderada por Braima Camará, já lançou ofensiva para o embate com quem se auto-proclamou do seu presidente de honra, ainda que esta função não exista nos estatutos do partido. Sandji Fati e Zé Carlos já foram encostados às cordas pelo partido. Mas o MADEM G-15 continua a patinar no lamaçal para a sua autodestruição, quando o seu líder afirma de boca cheia que está a lutar pela legalidade democrática ao mesmo tempo que se recusa a defender o retorno à ordem Constitucional e democrática, nomeadamente exigindo a abertura do plenário da ANP, impedido de funcionar por Umaro Sissoco Embaló, com a cobertura do mesmo MADEM G-15. Esta táctica do MADEM G-15 lembra o ditado guineense sobre o morcego que queria mijar sobre deus e acabou ensopado pela própria porcaria. MADEM G-15 ainda parece não ter interpretado bem a mensagem do eleitorado guineense nas últimas legislativas e está a demorar tanto que corre riscos de sobrevivência.

O cenário no PRS segue um rumo parecido do ponto de vista da interferência do Umaro Sissoco Embaló nas suas estruturas. Ilídio Té, o seu menino das finanças, injecta o dinheiro, enquanto Fransual Dias coordena os contactos com elementos das bases do partido para a onda de perturbações à sua direcção. Esta, porém, finalmente tem dado respostas mais fortes do que o MADEM G-15 na direcção ao combate à ditadura do Único Chefe. Operou mudanças profundas nas suas estruturas de juventude, de mulheres e nas regiões. Mais importante ainda, começa a confrontar o ditadorzeco sem rodeios e de forma contundente. Recusa acatar as ordens do STJ ao serviço do Sissoco; já se pronuncia contra a dissolução contra-constitucional da ANP e a ida às eleições legislativas antecipadas; tal como rejeita a ideia de as próximas presidenciais serem em Novembro de 2025. PRS parece ter noção do perigo à sua vista, se continuar a navegar em águas turvas e ao serviço do clientelismo enferme nas suas estruturas. Resta saber se é só mais um falso alarme activado contra o ditador, ou se o partido resolve mesmo salvar-se do precipício que o levou da segunda maior formação política da Guiné-Bissau para terceira, com o PTG a comer-lhe os calcanhares para esta posição.

Da APU-PDGB não há muito a dizer. As últimas eleições legislativas transmitiram-lhe a mais forte mensagem que poderia haver sobre o seu estado: saiu de 5 deputados (uma bancada parlamentar) para 1, apenas um, resultado claro da escolha do seu presidente, Nuno Nabiam, que foi primeiro-ministro durante os três desastrosos anos que antecederam essas eleições. Nabiam demitiu-se recentemente do cargo de conselheiro com regalias de um Primeiro-ministro, função com que Umaro Sissoco lhe queria engodar para o manter preso à sua agenda absolutista. A fusão da APU-PDGB e PRS será mesmo a única salvação possível ao Nuno e seu partido, porquanto o seu capital político é bem resumido pela alcunha que se lhe arranjou: Ndangmésse. 

O conflito entre o Sissoco Embaló e aqueles que o ajudaram a tornar-se no Único Chefe já não é aparente. Está mesmo um conflito instalado. E Umaro Sissoco Embaló sabe que sem apoios do MADEM G-15, do PRS e da APU-PDGB o seu fim está mais próximo. Basta estarmos atentos às suas reacções aos ataques que tem sofrido dessas bandas. Não é mais o todo-poderoso que manda  quem ousar "abrir guerlas" contra os seus desmandos "para o caralho". Nem é mais aquele que aparece em público por tudo e por nada a desfilar a sua cobardia encapotada de exibição do poder absoluto. Esta versão do nosso Kim Jon-Un até se afirma "triste" e "tocado" por ataques daqueles que chama da sua própria gente. 

Mas não nos iludamos. Umaro Sissoco Embaló sabe que o seu fim está perto e é claro que fará de tudo para reverter o cenário a seu favor. Se ele conseguir, de novo, reunir MADEM G-15, PRS e APU-PDGB em torno do seu projecto ditatorial e absolutista, garantirá não apenas apoios políticos de peso para um segundo mandato, mas também reforça o seu poder militar para continuar a raptar, espancar e perseguir cidadãos e adversários políticos que lhe são mais incómodos. Porque, a concretizar-se este cenário, a PAI-TR não terá fibras para um confronto político contundente, através de mobilização das suas bases populares de apoio para impedir o avanço do autoritarismo sissoquista para mais 5 anos. Por mais que os seus apoiantes não queiram admitir este facto, a PAI-TR revela-se uma organização política liderada por um punhado de intelectuais desprovidos de arcaboiço para dirigir lutas políticas capazes condicionar as acções totalitaristas do Umaro Sissoco Embaló. E nem vou perder tempo em argumentar para sustentar esta constatação. Bastará a quem se interessar por isso prestar atenção à inoperância da liderança da PAI-TR neste preciso momento em que lhe é negada uma governação sufragada pelo povo. 

Ou seja, para derrubar o Sissoco, enquanto a PAI-TR não se despertar para combates políticos mais firmes e consequentes, e enquanto não houver um movimento popular organizado para o combate nas ruas, corremos o risco de depender das consequências dos conflitos entre o ditador e o PRS, o MADEM G-15 e a APU-PDGB, justamente os partidos-gangues que o conduziram ao poder e têm sustentado a sua tirania. E é nisto que reside a nossa maior mufunesa. Para nos livrarmos do ditador, precisaremos de acção de quem o fez Presidente da República. 

Mas antes de fechar este texto que já vai longo, muito longo, porque necessário, é importante lembrar a todos os partidos do velho e podre sistema político guineense que têm acompanhado o ditadorzeco no seu despotismo de que, para se livrarem de derrotas eleitorais do tipo que levaram nas últimas legislativas, só lhes resta uma escolha: contrariar a subversão da ordem Constitucional e democrática, o que passa antes por exigir a retoma do funcionamento da ANP e realização das eleições presidenciais no tempo determinado pela Constituição. É mesmo uma questão de salvação do que resta das estruturas clientelistas desses partidos políticos. 

Sumaila Djalo 



Comentários

  1. Mas em todo este pântano em que vegetam estas tristes figuras, que envergonham o mundo político e o povo guineense, há uma pergunta que gostaria que fosse feita aos senhores Fernando Dias e Braima Camará:
    -Porque não exigem aos seus militantes que fazem parte do atual governo, que se demitam, uma vez que eles próprios reconhecem a ilegitimidade da dissolução da ANP e como tal a ilegalidade do atual executivo que aceitaram fazer parte?



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    1. Uma pergunta a que já fugiram de responder aos jornalistas de forma coerente várias vezes. Sabem o que fazem.
      Um abraço, Marcelo!

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  2. On djarama bui, karamoko! Suma bu fala ba dja na bu artigu sobri diklarason di Idriça, " sistema ka ten ki kuradu. Sistema ten ki matadu". I prisis sedu muitu inusenti pa akridita ne "paktu uniku" ou "luta pa dimokrasia". Kontinua ba ta bota nu sorti. Bon djundjun. Nô sta djuntu!

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