O triunfo da estratégia de caos do Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló
Foto: Facebook de Umaro Sissoco Embaló
"Muito tarde, tarde demais" - provérbio alemão
Quando, em Outubro de 2023, escrevi neste blogue sobre a estratégia de caos de Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló, não estava a esforçar-me para vender qualquer ideia de que eu fosse uma espécie de vidente, djambakus, ou coisa parecida. Limitei-me a prestar atenção a dois polos de comportamentos que fundamentavam a luta política no período imediatamente a seguir às últimas eleições legislativas realizadas na Guiné-Bissau. De um lado, colocava-se um Umaro Sissoco Embaló com um tom de discurso diferente, pacífico, a apelar até para a "trégua" nas lutas pelo poder. Falsidade! Do outro lado, estava a PAI-Terra Ranka, coligação vencedora das legislativas com uma expressiva maioria absoluta que atormentou o orgulho totalitarista do Sissoco Embaló. Era uma oportunidade para reforçar a aliança popular contra uma ditadura sanguinária que não deixava margens para se duvidar do carácter absolutista do seu líder. Mas a PAI-TR deixou-se engodar pelo ditadorzeco e caiu na armadilha que viria a culminar com a dissolução contra-constitucional da ANP. Ingenuidade!
Não volto a escrever sobre a mesma estratégia do Umaro Sissoco Embaló para me gabar de que "já tinha avisado das suas consequências". Volto a abordá-la porque, infelizmente, boa parte do que tinha previsto no artigo de Outubro de 2023 já não é mera projecção, mas factos consumados. Ou seja, tendo ganhado tempo e distraído os seus principais adversários políticos, Umaro Sissoco Embaló está numa fase avançada de transformar o caos generalizado numa ordem em que só ele e os seus capatazes sobrevivem, detendo o poder.
Para pavimentar a estrada do absolutismo que hoje está a percorrer de forma aparentemente livre de qualquer oposição política, o Sissoco Embaló decapitou duas instituições centrais na manutenção do equilíbrio do poder e das forças: o poder judicial, através do assalto ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), e a ANP, dissolvida de forma abusiva. A captura do STJ permitiu-lhe um resultado imediato: bloqueio de qualquer possibilidade de os tribunais fugirem do seu controle e dificultarem a prática subsequentemente da sua agenda de atropelos sistemáticos à ordem legal e Constitucional. Por outro lado, a dissolução contra-constitucional da ANP, onde a maioria lhe era oposta, era uma espécie de ouro sobre o azul, na medida em que deixava de existir qualquer órgão de soberania com poderes para legislar, fircalizar e, sobretudo, condicionar a acção governativa.
Na vertente de lidar com os principais partidos políticos do país, Umaro Sissoco conseguiu, até agora, três proezas. Primeira proeza: colocar a PAI-TR de joelhos no chão, porque sem cabedal para confrontos políticos mais contundentes após a estúpida dissolução da ANP, ao ponto de entrar em negociações com o ditador para a formação de um governo de gestão transitória. Portanto, uma forma de legitimação da dissolução da ANP, ainda que a mesma PAI-TR continuasse a reclamar da flagrante ilegalidade desse acto. Um estúpido paradoxo! Segunda proeza: não conseguindo controlar a direcção interina do PRS, escolhida pelo Conselho Nacional do partido, órgão máximo entre os congressos, patrocinou uma crise interna nesta formação política, através de agentes como Ilídio Té, seu ministro de finanças, ou Fransual Dias, sua ancora para a produção de confusões que culminaram com o nascimento da ala partidária dos Inconformados. Terceira proeza: o MADEM G-15, partido que o ditadorzeco ajudou a criar a partir de uma conhecida ruptura no seio do PAIGC, está partido ao meio, com estruturas desorientadas e a viver em caos. Não falo da APU-PDGB porque esta hoje vive à sombra do PRS, não fosse aquela uma costela deste.
Para facilitar a vida ao ditadorzeco na consolidação aparente da sua estratégia de caos com vista a afirmar o seu absolutismo, entretanto, todas estas formações políticas que se dizem opositoras do Umaro Sissoco e a lutar pela "salvação da democracia na Guiné-Bissau" têm-se revelado tacticamente ingénuas e politicamente desastradas. A direcção política da PAI-TR está exilada no que chama de "diplomacia parlamentar", que mais não é do que uma forma tosca de simular a sua indisponibilidade para enfrentar o ditador através de mobilização popular e de confrontos políticos abertos. Resultado: o principal partido da coligação, PAIGC, tenta abafar uma ruptura interna já visível para todos os que não ignorem as manifestações internas de oposição ao seu líder, Domingos Simões Pereirar, por parte de dirigentes do partido no governo golpista do Sissoco, sobre quem o partido não ousa tomar qualquer medida punitiva, colocando-se até numa situação de refém face a estes membros, um dos quais principal advogado do PAIGC e presidente do seu Conselho de Jurisdição.
PRS, MADEM G-15 e APU-PDGB, reunidos no que apelidam de Fórum para a Salvação da Democracia, não falam a mesma língua no que respeita ao roteiro para o retorno à ordem Constitucional. Para PRS e APU-PDGB, a ANP não está dissolvida e, por isso, não se pode falar de eleições legislativas, mas de presidenciais, a realizar-se ainda este ano. Isto, apesar de a APU-PDGB ter tido um papel activo na cobertura política para a dissolução contra-constitucional da ANP. Ora, a leitura do MADEM G-15 sobre esta matéria é exactamente o contrário do que os seus aliados de circunstância defendem. Mas a explicação para essa contradição no seio do chamado Fórum para a Salvação da Democracia é simples: MADEM G-15 foi o partido que ajudou o Umaro Sissoco a instalar um conjunto de falsos debates que culminou com a dissolução contra-constitucional da ANP.
Hoje, com a ANP há sete meses impedida de funcionar; com o caos instalado nos principais partidos políticos do país, por patrocínio claro do Umaro Sissoco Embaló, que conseguiu impor uma direcção interina paralela no PRS, através de instrumentalização de um STJ em situação de golpe institucional; a PAI-TR pode continuar a meter queixas em tudo quanto é organismo da fraudulenta comunidade internacional; o PRS pode continuar a falar da confiança em tribunais e até a acreditar que um STJ ao serviço do ditadorzeco anotaria os actos do partido contra os interesses do Umaro Sissoco; o MADEM G-15 pode continuar a defender "retorno à ordem Constitucional", mas a ignorar a dissolução contra-constitucional da ANP... até assumirem a coragem de, "pelo menos uma vez", confrontar o ditadorzeco através de mobilização popular dirigida pelos próprios líderes destes partidos como única forma de enfrentar a ditadura e salvar o multipartidarismo para a democratização na Guiné-Bissau, um processo de si complexo e traiçoeiro. A escolha continuará a ser desses partidos: ou enfrentar o problema, ou fugir dele e capitular-se face à instituição do absolutismo.
Sumaila Djalo

Sempre certeiro mano!
ResponderEliminarBem explanado!👏🏿
ResponderEliminarFalou mano
ResponderEliminarNão era difícil perceber a estratégia de Umaro Sissoco Embaló para se entronizar e eternizar no poder como rei ou dono e senhor absoluto de todo o reino da Guiné-Bissau.
ResponderEliminarConfesso que foi mais difícil para mim perceber o miopismo (para ser simpático) que atacou embora em intervalos bem definidos todos os partidos políticos com assento parlamentar, ou aqueles que a sós ou em conjunto, têm tomado conta do poder na Guiné-Bissau nas ultimas décadas.
Mas Sissoco conhecia e conhece bem todas peças com que joga no tabuleiro político guineense, e até por isso, julgo que demorou menos tempo do que previa a fazer xeque-mate a todos eles.
Se é verdade que DSP tinha sobrevivido a todos os ataques de Jomav/Braima/Sissoco, e conseguido uma vitória que considero brilhante nas legislativas de 2023, desta vez com todos os poderes militares e judiciais nas mãos de Sissoco, acabou por cair com estrondo, sendo que, por cansaço ou erro de estratégia, DSP não conseguiu recuperar deste golpe que o mantém longe do povo, do país e do poder.
Braima Camara, Nuno Nabian e Fernando Dias estão hoje a provar do seu próprio veneno. Habituados a usufruir do poder apenas em situações de golpes de estado, ou de inconstitucionalidades tão usuais nesta terra acabaram por pagaram o preço de tantas traições com a traição do líder que inventaram, criaram, alimentaram e mais tarde não conseguiram dominar.
Fui daqueles (não muitos), que ao longo dos últimos quatro anos fui escrevendo sobre este lento estertor da democracia Guineense. A imagem da tomada de posse rodeado de militares, exemplificou sempre bem o que vinha por aí a seguir e não era difícil antever.
O cansaço, a desorientação, a frustração e até algum desconhecimento da situação, tornam o povo guineense inerte e afastado de movimentações que ponham em causa a sua segurança, o modo de vida que adoptou á décadas de se afastar dos conflitos, embora se sinta sempre disponível para participar em eleições.
A sede do poder de cada um dos lideres políticos, a sua vaidade e incapacidade de ceder e partilhar, a falta de sentido de patriotismo, leva a uma inércia absoluta do poder politico em se unirem contra o atual sistema e que Sissoco soube e saber gerir a preceito.
Tem vindo da sociedade civil os primeiros e fortes gritos pela liberdade. Mesmo violentada, ameaçada e torturada tem sido esse pequeno grupo de heróis, quem tem levado até ás ruas o grito de revolta e de coragem.
Será uma luta de David contra Golias, mas quando a luta contém como ideais, a liberdade, os direitos, a democracia, o desenvolvimento e o bem-estar do seu povo, eu acredito que a força da razão e do coração se vai sobrepor á força das armas e da coação!
Marcelo Marques