Crónica de pantchidura do MADEM G-30

 


Quem semeia vento, colhe tempestade (provérbio de autoria atribuída ao Profeta Oséias)

Desde o regresso apocalíptico de Bá Quecuto a Bissau em Fevereiro deste ano, após ter-se retirado para Portugal na ressaca da derrota eleitoral do MADEM G-15 nas legislativas de Junho de 2023, a relação azeda com Umaro Sissoco Embaló, seu afilhado na mafiosa política guineense, transformou-se em confrontos públicos e nunca mais foi como quando lhe segurava na mão para ser nomeado Primeiro-ministro pelo JOMAV. Naquele dia, lembremo-nos, Braima Camará fez o grito que anunciava a nova que só ele não sabia até então: Es i ditadura!

A Guiné-Bissau encontrava-se no rescaldo de mais um golpe Constitucional praticado por Umaro Sissoco Embaló, que resolveu violar escancaradamente a Constituição da República para dissolver o parlamento. Conhecemos o resto da história, do papel activo do MADEM G-15 nesse golpe e de como o seu coordenador Braima Camará insiste em apregoar o seu suposto compromisso com a legalidade democrática e Constitucional, mas se recusa a exigir a retoma de funcionamento da ANP. Pois bem, lá saberá ele em que planeta se defende a Constituição da República ao mesmo tempo que se ignora a sua flagrante violação! 

Mas não é desse episódio que venho cá escrever hoje. Venho, sim, registar os efeitos do machado divisionista de Umaro Sissoco Embaló sobre o MADEM G-15, numa jogada digna de ser lembrada pela memória da máfia política guineense como aquela que tornou o partido em MADEM G-30, pois se o G-15 de Bá Quecuto for somado ao G-15 de Adja Satu Camará o resultado é G-30. A Matemática não engana! Quem sabe até ser esta a fórmula mágica encontrada por Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló para duplicar a força do seu partido e, finalmente, conduzi-lo ao poder de forma legal?! 

De um lado, o G-15 de Satu Camará, a especialista em encabeçar barafundas partidárias, que agora é acompanhada por uma mão cheia de ex-vice-coordenadores do G-15 do Braima Camará e outros quantos ex-camaradas-irmãos do Bá das águas de Geba, aqueles que o juramentavam fidelidade desde a ramboiada que ditou a sua expulsão do PAIGC até a unânime renovação da confiança política de que beneficiou quando simulou abandonar os seus kode matchus ku femias no meio do mar. Nelson Moreira é quem entre eles se esforça a mentir melhor sobre as leis, interpretando-as para se conformarem às ordens do Único Chefe. Soares Sambu continua com o seu ar sonolento a observar tudo e a todos, pois os relatórios têm de chagar ao gabinete do seu amado dono e patrão sem rasuras. E o resto da cambada faz tudo para nada faltar ao novo G-15 às ordens do Palácio Del Rei. 

Não terei espaço para descrever as tarefas de cada um. Mas há uma ocorrência do ajuntamento do G-15 de Satu Camará digna de registo: a enorme paixão nutrida por parte do rebanho à sua guarda pelo artigo 18 dos Estatutos partilhados com o G-15 de Braima Camará. Eu até fiquei com a ideia de que esses Estatutos só têm um artigo e seus respectivos números: Artigo 18, número 1, 2, 3...! E foi mesmo com base no santo artigo 18 que foram eleger Adja Satu Camará para ser a coordenadora do G-15 do Umaro Sissoco Embaló contra quem até ontem ainda lhe tratava de "nha mame Adja". Vamos fingir que não entendemos a hipocrisia! 

Do outro lado da pantchidura (machadada) sissoquista no MADEMG-15, Braima Camará continua dono e senhor do navio entregue ao vento ditatorial que o próprio sujeito ajudou a semear para hoje nascer uma tempestade a ameaçar a sua existência política e empresarial, já que na Guiné-Bissau as duas coisas vão sempre de mãos dadas: política e empresariado. Acompanhado pelo seu puto Fidélis Forbes, de quem pairava desconfianças sobre a sua fidelidade ao primeiro Bá dos G-15, lá conseguiu o Braima Camará renovar a sua liderança num acto, diga-se, estatutário, mas sobretudo convencer os seus fiéis a aprovarem uma grande santa maria de ataque político ao Umaro Sissoco Embaló, a quem foi retirada a confiança política pelo seu próprio partido.

A reunião do G-15 a guarda do Braima Camará teve de tudo. Até a presença de JOMAV que, na veste do presidente de honra do partido, tentou um discurso para agradar ao santo e ao diabo. O ex-homem de 25 mostrou ainda o seu tosco dote de ser Dj, tendo escolhido uma canção que terminava com uma forte exortação: "Si bo ka pudi ku tera / bo torna Cabral si tera" [Se não forem capazes de dirigir o país / devolvam ao Cabral o seu país] (Os fidalgos). Resta saber a quem melhor serve a carapuça entre os seus sequestradores políticos, se ao Umaro Sissoco, que lhe destronou para inaugurar a sua ditadura, ou ao Bá Quecuto, que ajudou o outro a destroná-lo. 

O quadro geral é este, meus amigos e minhas amigas que insistem em ler o que vou escrevendo por aqui. Umaro Sissoco Embaló conseguiu mesmo pantchir o MADEM G-15 ao meio e, pelas minhas contas, transformá-lo em MADEM G-30. E agora? Perguntam-me. Sei a resposta. Sei, sim. E digo-a em 3 instâncias: 

1. Umaro Sissoco Embaló terá o seu MADEM G-15 usurpador e golpista, coordenado por Adja Satu Camará, validado pelo STJ ao seu serviço, tal como aconteceu com o PRS golpista do Félix Nandungue. Com ele, continuará a desestabilizar a direcção legítima do partido como mecanismo de chantagem, mas também como equação para a próxima eleição presidencial. Para ele a fórmula é 8 ou 80.

2. Bá Quecuto continua a arrastar maior parte das bases populares do partido consigo, mas isso não lhe será suficiente para derrotar o ditador que levou à Presidência da República da Guiné-Bissau. Será preciso confrontá-lo, assumir o combate interno e a disputa aberta pelo MADEM G-15. Já demonstrou ter estofo para isso. A retirada da confiança política ao ditadorzeco era um passo importante nessa direcção. Ai dele se recuar depois de ter chegado até aqui! Nem falo das consequências políticas que teria de pagar, mas daquelas que serão mais terríveis ainda. Alguém se lembra do paradeiro de Aristides Gomes? Pensem nisso...

3. Umaro Sissoco Embaló está aflito. Juro-vos pela minha disponibilidade mental de raciocinar! O dito cujo é dos tipos mais covardes que já passou pela presidência da República da Guiné-Bissau, apesar de transmitir uma percepção contrária para fora. Mas é igualmente dos mais corajosos que por lá passou (compreendam-me o paradoxo). Pela sua capacidade de esconder o seu medo, até transformá-lo em elemento de bloqueio aos adversários, que se têm revelado incapazes de confrontá-lo de facto durante estes cinco anos. 

Os ataques do Sissoco serão incessantes e as suas direcções estão bem identificadas: PAI-TR, PRS legítimo e sob a liderança do Fernando Dias, APU-PDGB e MADEM G-15 legítimo, liderado por Braima Camará. Resta saber se estes terão tomates colocados nos devidos sacos para enfrentar o desafio de sobrevivência política que lhes é colocado. 

Sumaila Djalo 

Comentários

  1. A verdade é que Umaro Sissoco Embaló vai conseguindo paulatinamente levar “a água ao seu moinho”, ou seja, tornar o seu poder cada mais sustentável e incontornável.

    Ver e ouvir nos tempos que correm, o choro falso e inusitado de virgens arrependidas que o endeusaram, idolatraram, e colocaram no pedestal máximo do poder e de onde não quer sair, é mais do que lamentável, triste e imperdoável.

    Porque a grande maioria dos que criaram e alimentaram o monstro, o fizeram por dinheiro, nomeações, falsas promessas e ambição desmedida, para não lhe chamar ganância e desprezo pelo povo que nalguns casos os elegeram.

    Homens e mulheres que ao longo dos últimos anos foram verdadeiros troca tintas da politica, que trocaram de partido e meio partido com a mesma facilidade com que trocam de camisa, aparecem alguns, agora, quais virgens arrependidas, fazer um mea culpa, como se as suas palavras ditas ou escritas tivessem algum valor (que não serem consideradas desculpas de mau pagador, mentiras e hipocrisias), para todos aqueles que os conhecem dos meandros podres da política guineense.

    Sissoco, que ao longo desde quatro anos capturou todo o poder judicial, politico e militar nas suas mãos, ri a bandeiras despregadas deste teatro mal ensaiado e pior ainda declamado pelos seus ex apoiantes e serviçais.

    Usou-os como se usa um preservativo e deitou-os fora depois de consumado o ato.

    E nesta captura que está a executar cirurgicamente dos principais partidos políticos, vejo já uma jogada digna de um guru de Muammar Al Gaddafi.

    Prevendo um eventual boicote por parte dos principais partidos ás eleições legislativas que quer forçar em novembro, encontra nestes clones que está a criar e que vai legalizar com a inestimável chancela do “seu” STJ, os nomes para colocar no boletim de voto, juntamente com os seus “arregimentados” do partido Luz e de um ou outro partido, que a troco de pevides irão aceitar entrar na legitimação de uma ilegalidade.

    Enquanto tudo este teatro vai acontecendo num palco com poucos metros quadrados na Praça de Bissau, o povo assiste faminto, desorientado, cansado, mas ainda assim aparentemente afastado e desinteressado, como se algo ou alguém o tivesse anestesiado!


    Marcelo Marques

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

"Golpe de Estado" na Guiné-Bissau? Golpe de quem? Contra quem?

Nunca mais é 27 de Fevereiro! Crónica de uma contagem crescente

'Amadu Mussa' - a crónica de "sakudi bunda no bai"