O que liga a ditadura do Sissoco ao narcotráfico?

Foto: Facebook do ditadorzeco 

Fidju nunka padidu tras di si mame - provérbio guineense 


De acordo com resultados de vários estudos, a ligação entre as redes de tráfico de drogas e figuras cimeiras das instituições do Estado da Guiné-Bissau remonta de 2005, na corrente do regresso de Nino Vieira ao poder, depois de seis anos de exílio em Portugal.  De lá para cá, têm sido constantes os episódios de apreensão de toneladas de cocaína no país, com envolvimento de lideranças políticas e militares no seu negócio. Esta reflexão não pretende retomar a longa história de narcotráfico na Guiné-Bissau, que pode ser acompanhada nos estudos referidos no início do texto. Mas pretende pontuar incidentes de tráfico de cocaína ocorridos nos últimos cinco anos e como eles se ligam ao regime no poder. 

De acordo com as conclusões da investigação jornalística conduzida por Micael Pereira, do jornal português Expresso, António Injai, Papa Camará (Chefe da Força Aérea) e Mamadu Nkrumah (vice-CEMGFA), oficiais militares presentes na posse de Nuno Nabiam ao cargo de Primeiro-ministro do governo ilegal da iniciativa do Umaro Sissoco Embaló, estavam todos sancionados pela ONU e visados pelos departamentos estadunidenses de combate ao narcotráfico. Se as presenças de Nkrumah e Camará no evento podiam ser justificadas pelas suas posições nas forças armadas (o que não é normal, tratando-se de acto político de intronização de um poder supostamente civil), a presença de António Injai, na altura oficial militar na reserva, era um sinal claro da sua influência sobre os poderes políticos do país, ainda que indiciado de tráfico de droga. 

Pouco tempo depois da instituição do governo liderado por Nabiam, em Março de 2020, Ramon e Seidi Bá, com longo cadastro de narcotráfico, condenados a cinco anos de prisão por tráfico de cocaína e que tinham fugido para fora do país, voltaram a Bissau e retomaram a sua vida normal, longe das celas que legalmente lhes esperavam. Mas estes episódios estão longe de explicar toda a ligação do sissoquismo com o tráfico de cocaína. 

Em Novembro de 2021, um avião A-340 foi retido pelas autoridades da Aviação Civil logo à chegada ao aeroporto de Bissau, por suspeitas sobre o que teria no seu interior. Informados sobre a suspeita, toda a tripulação que vinha na embarcação fugiu, abandonando a aeronave no Aeroporto Osvaldo Vieira. Dias depois, a comissão parlamentar para área da defesa e segurança, liderada por José Carlos Macedo, então deputado do MADEM G-15, hoje Secretário de Estado da Ordem Pública do governo do Sissoco, realizou um inquérito que apurou junto das autoridades aeroportuárias de que a aterragem do avião tinha sido autorizada por ordens do Umaro Sissoco Embaló, através do seu chefe de gabinete, que viria a não comparecer para uma audiência convocada pela comissão especializada do parlamento a conduzir o inquérito. 

Na altura, mesmo com a fuga da tripulação e antes da conclusão dos inquéritos em curso, Umaro Sissoco Embaló afirmou que o avião era de "gente séria", sem dizer quem era, que estaria a trabalhar na construção de um novo hangar no aeroporto de Bissau. O facto de esta justificação não ter sido corroborada por Nuno Gomes Nabiam, PM, é prova de que o avião de que nunca mais se falou era tudo menos de "gente séria". 

Um anos depois, em Setembro de 2022, áudios e relatório de um inquérito sobre tráfico de droga vazados através das redes sociais divulgaram informações sensíveis sobre alegado benefício do então Ministro do interior, Botche Candé, e Procurador-Geral da República (PGR), Bacari Biai, de quantidades significativas de cerca de 600 kg de cocaína apreendida meses antes pela Polícia Judiciária (PJ) guineense. Tanto o Botche como o Bacari tinham recusado qualquer ligação com as redes de narcotráfico. Porém, no final de Outubro do mesmo ano, sob forte pressão de organizações da sociedade civil, Botche Candé seria deslocado por Umaro Sissoco Embaló das funções do Ministro do Interior para o da Agricultura e, para despistar o debate público sobre aquele episódio, Sissoco exonerou Bacari Biai do cargo do PGR. 

Vale assinalar que, dois anos depois, com um período de governação da PAI-TR pelo meio, Botche Candé (cujo partido fez parte desse governo da PAI-TR) voltou ao cargo do Ministro do Interior e Bacari Biai é Procurador-Geral da República. Exactamente as funções que desempenhavam ao período do escândalo de narcotráfico de Setembro-Outubro de 2023 e numa altura em que o tráfico de cocaína volta a dominar o debate público guineense. Os mais recentes episódios reportam a apreensão, em Bissau, de um avião com 2,6 toneladas de cocaína, e de um navio apreendido nas Ilhas Canárias, Espanha, proveniente da Guiné-Bissau, com bandeira de Tanzânia, e que transportava 3.281 kg de cocaína, avaliado em cerca de 100 milhões de euros. 

Desde a sua origem, portanto, e ao longo de toda a sua vigência, o regime autoritário encabeçado por Umaro Sissoco Embaló sempre teve os seus elementos centrais ligados ao narcotráfico, quer sejam figuras de alta patente nas forças armadas, quer ministros e magistrados de órgãos importantes do Estado guineense. Aliás, no mês de Julho passado, antes mesmo das mais recentes apreensões de drogas na Guiné-Bissau, alguns desses casos envolvendo figuras políticas e judiciais do país, Nuno Nabiam, que foi PM do Umaro Sissoco durante três anos, afirmou publicamente que o Presidente da República sabe do tráfico de droga em curso no país. 

Para terminar esta reflexão que já cheira muito a cocaína, tabaku di iran, lembro que, até hoje que estou a escrever este texto, Umaro Sissoco Embaló não moveu uma única queixa contra Nuno Nabiam, que lhe tem acusado de tráfico de droga e, sobre os últimos episódios, as suas reacções públicas, que procuram evitar a abordagem sobre o assunto, denotam esse mesmo cheiro à coca ao seu redor. Aliás, quem é atento ao seu modo populista sebe que o Sissoco faria destes episódios de apreensão de droga uma bandeira para a sua propaganda política, se o cheiro oco do produto que o Nabiam diz estar por todo o lado de Bissau não lhe fosse familiar. 

Sumaila Djalo 

**Este artigo é o terceiro de uma série de 5 textos sobre o estado actual da ditadura comandada por Umaro Sissoco Embaló a publicar neste blogue. 

Comentários

  1. Realmente, estas pessoas vivem da mentira e de crime organizado.
    Até mesmo o Nuno Nabiam nunca foi um cara séria. Suas conversas do mês de junho, foi para ter uma oportunidade e segunda chance do povo, e conseguiu.
    Não é estranho que estes militares apóiem o Sissoco Embalo, porque com a liderança do PAIGC, não teriam vidas fáceis com seus negócios. Só seria possível com o Sissoco no poder. .que agora o controlam, deixando-o que pense que está totalmente no controlo, que é o engano seu

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