Crónica da Cimeira de debandada
A minha opinião sobre a CPLP é pública e muito anterior à cimeira de Bissau. Se quiser conhecê-la, clique sobre este azul. Mas posso retomá-la aqui em traços gerais: é uma organização ao serviço das pretensões neocoloniais e geopolíticas de Portugal. Os factos não me desmentem. O objectivo da organização é promover a língua portuguesa e a cultura a ela associada. Portanto, a cultura portuguesa. Os mesmos objectivos do Estatuto do Indigenato e do Acto Colonial, duas leis estruturantes do colonialismo português em África. No plano internacional, repito, é o principal instrumento para exibição de alguma relevância de Portugal. Atentem-se aos discursos dos seus líderes políticos sobre a CPLP. E não precisam de muito esforço. Um breve Google sobre o que Marcelo Rebelo de Sousa tem dito a respeito da CPLP ajuda a dissipar eventuais dúvidas. Por isso, para mim, ou a CPLP se faz coerente com os seus supostos valores estruturantes e se despe da sua colonialidade, o que é praticamente impossível, porque estaria a desligar o seu principal motor, ou o curso da história arrasta-a para insignificância total.
Mas para Umaro Sissoco Embaló a barrigada de Bissau representa sem dúvida uma grande vitória política sobre os seus adversários e para o fortalecimento da sua ditadura. Explico-me. Primeiro, porque demonstra a estes, mais uma vez, que as organizações da fraudulenta comunidade internacional nunca serão capazes de intervir contra a ditadura do Único Chefe. Não só porque não é a sua prioridade num mundo em turbulências, mas também porque Sissoco é conveniente aos interesses que comandam estes espaços. França e Portugal não são amigos de acaso do Sissoco. Uma quer novos emissários numa África Ocidental a fugir-lhe e outro sempre teve medo de perder influência nas suas ex-senzalas. Segundo, porque alguns desses adversários têm disfarçado a sua inoperância em organizar uma oposição popular à ditadura sissoquista com o que chamam pomposamente de "diplomacia parlamentar". Terceiro, porque o Sissoco consegue sempre alimentar o debate público com a sua populista "diplomacia agressiva", que só acolhe aplausos dos menos informados, da sua claque e dos seus partidários escondidos na capa rota de neutralidade. Depois de presidir a CEDEAO, preside a CPLP numa altura em que todos os principais órgãos do Estado guineense funcionam à margem da lei, começando por ele como PR.
Para a CPLP o banquete de Bissau é a mais representativa exposição da sua decadência. Um: é presidida por um ditador, um fora de lei e para lá do tempo determinado pela Constituição da República para um mandato presidencial. Dois: porque ao mesmo tempo que se admite a tal barbaridade, Marcelo Rebelo de Sousa, PR do país hegemónico da CPLP, não vai à cimeira para não participar na homologação da próxima presidência da organização, que a Guiné Equatorial reclama. Motivo da oposição do Marcelo? Porque o país de Obiang Nguema viola os direitos humanos. Então e na Guiné-Bissau, onde há uma escancarada ditadura no poder? Além do mais, tanto a Carta Constituinte da CPLP, quanto os seus Estatutos dizem primar pela defesa do Estado de Direito, pela Democracia e pelos Direitos Humanos. A cimeira de Bissau expõe esta fraude e os silêncios da organização perante atropelos dos mesmos valores contra a oposição e cidadãos em Moçambique e em Angola, contra imigrantes e minorias em Portugal e contra os alvos do regime equatro-guineense são provas de que a própria CPLP é uma antecâmara de legitimação de atropelos aos valores que diz serem-lhe estruturantes. Aliás, a cimeira terminou sem entendimento sobre quem assume a presidência da organização depois de Sissoco Embaló. E, no seu modo serviçal ao imperialismo genocida israelo-estadunidense, Portugal ainda conseguiu impedir que a reunião se pronunciasse contra matanças de crianças palestinas pela fome imposta por Israel.
Quando um jornalista me perguntou em 2022 que aspecto positivo via na presidência do Sissoco na CEDEAO, a minha resposta foi: nada mais do que escancarar e agravar a disfuncionalidade dessa congregação françafricana. Hoje, a CEDEAO está com menos de três Estados-membros e metida numa agonia sem precedentes. A CPLP já era uma não-organização ao serviço do seu pai-criador saudoso do seu passado sub-imperialista. Com a presidência do Sissoco, de certeza que as contas a fazer no fim deixam-na melhor do que nunca esteve: banalizada e ridicularizada. Mas ainda bem!
Sumaila Djalo

Muito obrigado Sumaila!
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