Caderneta política do #Mundial2026 (PÁGINA 3)


Acabou a fase de grupos da copa do mundo. As contas africanas não podiam ser melhores desportivamente: 9 das 10 selecções representantes do continente passaram à ronda dos 32. 5 selecções apuradas como segundas classificadas e 4 em terceiro lugar. 7 treinadores africanos estiveram à frente destas equipas. A força e a técnica, mais a noção das vantagens comparativas em relação a outras selecções, superaram estereótipos e ultrapassaram preconceitos. 

Ainda não houve racismo dentro do campo. Esperemos que não haja. Mas não faltou no comentariado à margem dos jogos. O protagonista desta vez é o ex-craque alemão Bastian Schweinsteiger, que não resistiu ao impulso racista de qualificar as selecções africanas de "selvagens". O adjectivo é bastante familiar, não é? Qualquer semelhança com a linguagem nos manuais coloniais não é mera coincidência. 

Nas redes sociais, hoje incontornáveis no debate público, notabilizou-se uma onda de apoios de cidadãos africanos às selecções representantes da África. E se fosse assim na política e na economia, nas nossas relações no dia-a-dia: África unida em torno do que poderia ser o resgate da grande proposta de Nkrumah para a construção de integração e soberania? 

Contudo, a força do futebol continua a não mudar estruturas concretas que impedem os países africanos de superar desigualdades, injustiças e a exploração imperialista de que esmagadora maioria das suas populações são vítimas. O futebol continua a entreter, mas nunca a mudar estruturas de subjugação (internas e externas) que inundam o continente. 

Muitos têm sido os que denunciam, com razão, a onda de afrofobia na África do Sul a cada jogo dos Bafana-Bafana. Era bom que estes protestos sirvissem para contrariar todas as expressões de xenofobia no continente. Que os guineenses não sejam mais "mandjakus" em Cabo Verde; que os migrantes africanos muçulmanos deixem de ser "os mamadus" em Angola; ou que os mauritanianos e la guineenses deixem de ser "nar cabras" e "nánias" na Guiné-Bissau. 

Que a presença de Mboladinga nas bancadas no próximo jogo do Congo nos lembre das matanças de que o seu povo continua a ser alvo por conta dos seus recursos, com o patrocínio do grande capital-imperialismo e da Ruanda de Kagame, essa maior fraude actual à ideia do pan-africanismo, e de que o seu presidente, Felix Thsekedi, tudo tem feito para se manter no poder através de um terceiro mandato contestado nas ruas de Kinshasa. 

Quando a excelente equipa de Marrocos pisar os relvados, que procuremos informações sobre o colonialismo de meio século a ser praticado pelo seu Estado no território do Sahara Ocidental, ali ao lado. Sim, existe um Estado africano colonizador de outro povo africano, contra as resoluções das Nações Unidas, do Tribunal Internacional de Justiça e violando o direito a autodeterminação dos povos, um princípio que deveria ser caro a qualquer povo que para a sua independência teve de superar o domínio colonial, como são praticamente todos os povos de África. 

Que a unidade orgânica dos Estados e povos africanos seja defendida no que mais deve interessar às nossas vidas: construir um projecto de união política e económica capaz de ultrapassar a dependência do Ocidente e a alienação das nossas elites no poder. Essa tarefa será sempre além da superficialidade de afectos nos jogos de futebol ou de proclamações abstractas de irmandade africana. Falta mais combate político orientado nessa direcção!

Sumaila Djalo

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