Caderneta política do #Mundial2026 (Página 2)

Quando a bola rolar hoje no jogo que marca as estreias das selecções do Congo e de Portugal na copa do mundo, os holofotes não estarão apenas nos protagonistas no limite das quatro linhas. Os actores não serão apenas o Chancel Mbemba ou o Cristiano Ronaldo e suas companhias. Haverá uma figura nas bancadas que não passará despercebida: Michel Kuka Mboladinga, o já emblemático adepto congolês que encarna a figura heróica de Patrice Lumumba. 

Tal como aconteceu nos jogos da CAN do Janeiro passado em Marrocos, os jogos dos leopardos africanos serão marcados por esta presença que, parecendo uma simples decoração, é carregada de uma forte memória política anti-colonial. Mboladinga não precisa de verbalizar o significado do seu gesto, se é que ele lhe atribui a função política com que é encarado nestas linhas. Basta-nos associá-lo à figura anti-colonial de Lumumba para captarmos a mensagem que lhe é sublimar. E neste mundial ganha um sentido particular. 

A presença de Lumumba através de Mboladinga será nos estádios dos EUA, cujo departamento de liquidação de líderes políticos incómodos ao imperialismo estadunidense, a CIA, em cumplicidade com Estados coloniais da Bélgica, da França e de Portugal (com quem a RD Congo joga hoje), arrancaram a vida ao Lumumba em 1961 por ousar afirmar que a independência do Congo tinha de servir para a libertação de toda a África do domínio colonial-imperialista. 

E a representação de Lumumba nas bancadas e ruas dos EUA faz a ponte entre esse passado suicida, como é todo o colonialismo, e o presente neocolonial que continua a sugar vidas a crianças, mulheres e homens congoleses nas minas de colbato e outros abundantes recursos das terras congolesas. Deixamos a menção do papel de certos poderes africanos e congoleses neste presente difícil para as próximas páginas desta caderneta.

O acto de Mboladinga em representar a figura anti-colonial de Lumumba ultrapassa o mediatismo acrítico que lhe tem sido dado. É um acto carregado de uma memória que mesmo a recente e reveladora devolução de um dente do que resta da digna integridade de Lumumba pelo Estado belga não consegue obstruir. É como que a dizer:《Não esquecemos!》

Sumaila Djalo 

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