Não há milagre nem ninguém que nos salve do sissoquismo
Aviso que o texto será longo, porque a circunstância assim o exige. Em 4 meses, os golpistas cerimoniais completam um ano no exercício ilegal e ilegítimo do poder. O que é que temos feito para os tirar de lá? Como é que os conseguimos tirar de lá? Por que ninguém os consegue tirar de lá? São algumas das perguntas que muitos têm feito. Não as reproduzo aqui à procura de respostas feitas. Tento sempre fugir de respostas fechadas para questões complexas. É o caso da situação actual na Guiné-Bissau. Ao invés, coloco esta pergunta: Como é que chegamos a esta situação? É a esta pergunta que vou procurar responder nas próximas linhas, pois se não podemos inventar soluções mágicas para os desafios existenciais que se colocam ao nosso país, somos capazes de nos prevenirmos de abismos prenunciados.
Não conseguimos solução para nenhum problema que nos seja colocado enquanto sociedade, se não nos pormos a encará-los com honestidade. Umaro Sissoco Embaló, o chefe dos golpistas cerimoniais, não veio do Marte para o poder, nem consolidou a sua ditadura num piscar de olho. Sabemos que chegou lá com apoio de militares e com estes tem fortalecido a sua ditadura de seis anos. Também conhecemos as suas conexões internacionais, de Dacar a Casa Blanca, de Lisboa a Paris. Igualmente, sabemos que tem montantes de dinheiro sujo com o qual tem comprado serviços dos dirigentes de todos os partidos políticos da Guiné-Bissau, do PAIGC ao MADEM G-15, do PRS à APU-PDGB. Portanto, conhecemos bem o caminho trilhado por Umaro Sissoco Embaló para tornar a Guiné-Bissau no seu quintal.
E nós, que responsabilidades temos perante esta consumação do abismo? Esta pergunta é fundamental, porque nos obriga a olhar para nós mesmos, cada um de nós, e de onde nos organizarmos ou nos mobilizamos em oposição ao sissoquismo. E temos todos as mesmas responsabilidades face à consolidação do sissoquismo? Para quem quiser tapar o sol com a peneira, teremos todos as mesmas responsabilidades. Mas quem é minimamente honesto sabe que os níveis de responsabilidade face à consolidação da ditadura sissoquista na nossa terra não são iguais. E vamos por partes!
Ao longo destes anos, não há ninguém capaz de afirmar, com convicção, que as organizações da sociedade civil, os movimentos sociais e estudantis, os sindicatos... não se opuseram ao sissoquismo. A lista é até bastante longa: UNTG-CS, Frente Social, Liga Guineense dos Direitos Humanos, Frente Popular, Movimento Revolucionário Pó di Terra, movimentos estudantis em protestos por todo o país, diferentes espaços de mobilização nas diásporas guineenses... Todos mobilizaram as suas forças até ao limite para enfrentarem o sissoquismo. E houve resultados palpáveis. As derrotas da turma sissoquista nas eleições de 2023 e 2025 não nasceram de milagres. Resultaram desta ampla mobilização de vários segmentos da sociedade.
E qual tem sido a postura dos partidos políticos alistados no que consideramos de oposição? Sejamos objectivos. Uma parte do PRS está alistada no regime e outra está hoje mais desorientada do que djikindor bêbado de nsum-sum. O dono do MADEM G-15 ora está com o seu pupilo ditador, ora está em fuga estratégica para sobreviver dos tentáculos da sanguinolência que ajudou a intronizar. Por isso, não considero que haja uma oposição de facto por parte destes partidos. E o PAIGC? Temos de reconhecer que seja o principal opositor político do sissoquismo. Também por isso, a sua principal vítima política. Não precisamos de retomar aqui todos os episódios de perseguições e de violências de que os dirigentes deste partido têm sido vítimas, porque estão à vista de todos. E temos igualmente de reconhecer que, no plano estritamente eleitoral, o PAIGC/PAI-TR sempre soube mobilizar o povo para nas urnas derrotar Umaro Sissoco Embaló e os seus serviçais. Mas o problema é o dia a seguir da votação.
O PAIGC depara-se com três problemas no combate ao sissoquismo. Primeiro, é um partido enferme de oportunistas e bandidos que não conseguem viver longe do poder, porque outra forma de sobrevivência não têm. E é esta corja que se tem aliado a Umaro Sissoco Embaló ao mesmo tempo que os seus membros mantêm assentos nos órgãos decisores do partido. Aliás, o presidente do Conselho de Jurisdição do PAIGC, o que poderia ser considerado do seu tribunal supremo, é ministro no governo golpista cerimonial. O segundo problema com que o PAIGC se depara é o facto de as suas estruturas dependerem do seu Presidente, Domingos Simões Pereira, para funcionarem. Este facto é confirmado pela total paralisia do partido perante o sequestro do seu líder. O terceiro problema é a ingenuidade de o PAIGC pensar que será com o legalismo oco que se vai derrotar o sissoquismo. E dizem-nos: o que podemos fazer perante um regime militar com total domínio sobre as armas? Nós repetimos a resposta: combatê-lo com uma mobilização popular mais consequente, ou resignar-se e parar de fingir de oposição.
Aliás, é-lhes mais fácil jogar a culpa no povo do que enfrentar as suas falências no domínio estratégico de combater uma ditadura. E ainda nos querem convencer de que todos temos as mesmas possibilidades de organizar uma mobilização popular capaz de colocar o sissoquismo em apuros. Como se as capacidades do maior partido do país, que mobiliza para maiorias absolutas em circunstâncias de ditadura, seja equiparável às possibilidades de mobilização de um movimento social sem bases populares, nem estruturas consolidadas. Quando são confrontados com este facto, a tendência é tirar o coelho de sempre da cartola:《Não seremos responsáveis por convocar o povo para as ruas e as pessoas serem mortas a tiro》. Lembremos-lhes: a organização de uma mobilização popular é também uma questão de oportunidade, de saber ler os contextos favoráveis para tal e de não fugir deles quando nos estiverem à vista. Houve esse contexto várias vezes, mas, como sempre, sejamos directos: o PAIGC/PAI-TR preferiu encetar alianças com os agentes do regime em nome argumentos que até o mais estúpido político teria vergonha de dizer em público, como quando se aliam ao PTG perante uma maioria absoluta contra a ditadura de que este partido faz parte.
Hoje, perante a consolidação do golpismo cerimonial - com total controlo sobre as instituições políticas, judiciais e militares - não serão as culpas jogadas ao ar que nos vão salvar. Também não serão certos dogmatismos inflamados de décima categoria a mobilizar o povo. Muito menos um Messias a salvar-nos. Venha de onde vier. Aliás, essa espera ingénua de um próximo Amílcar Cabral, um milagre que nos venha a salvar, é das maiores provas de que há muito a fazer até para necessidade básica de compreendermos que não será um herói empacotado que nos salva do sissoquismo, muito menos um Amílcar Cabral 2.0. Serão as nossas capacidades de olharmos para nós e para os nossos espaços de acção, honestamente, e encarar o desafio histórico de combate ao sissoquismo com outras lentes, mais conscientes das fragilidades e das forças a convocar para essa missão.
E não, não podemos aceitar que partidos políticos como o PAIGC - com 70 anos de existência; estruturas consolidadas em todo o país, mais até do que escolas construídas pelos seus governos; que arrasta as massas populares nas eleições sem se lembrarem das armas do regime; que está consciente do clientelismo enferme nas suas estruturas - nos queira convencer de que a Frente Popular, ou o Movimento Revolucionário Pó di Terra, tem as mesmas condições de organizar uma mobilização popular com força suficiente para enfrentar o regime, ou que tenham as mesmas responsabilidades nas causas do falhanço da oposição que têm ajudado a reforçar o poder da ditadura sissoquista. Pelo contrário, cada vez que nos tentam convencer com base nestas formulações demagógicas e oportunistas, reforçam uma verdade de que muitos de nós, até nos espaços de mobilização alternativos, preferimos fugir, a de que é o próprio velho sistema político guineense que exige de nós uma alternativa coerente com o tipo de sociedade que reivindicamos. Esta é a nossa verdadeira luta!
Sumaila Djalo

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