A estratégia de caos do Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló

Foto retirada do fecebook do ditador e a sua escolha não é por acaso: inclinado, aparece o seu agente-mor e hoje aliado da PAI-TR. 


No passado mês de Agosto, escrevi: "Engana-se quem pensar que isto já está resolvido".  O artigo procurava chamar atenção para o perigo que a ingenuidade política da liderança da PAI-Terra Ranka queria impor-nos ao tentar usar a sua máquina de propaganda para vender uma lunática ideia de "trégua" no combate ao Umaro Sissoco Embaló, como se estivesse a tratar de um político normal, com um pingo de decência merecedora de respeito de quem se lhe opõe. Era, no entanto, o mesmo Umaro Sissoco Embaló, autoritário, ditador, que tem usado e continuará a usar todos os meios possíveis para se manter no poder, mas também para limpar qualquer obstáculo que lhe seja colocado no percurso para a concretização desse objectivo. E parece que só à liderança da PAI-TR, crente no bem-senso de um ditador, resta alguma dúvida de que o principal alvo (não confundir com adversário) a eliminar nesse caminho seja a própria liderança da PAI-TR. 

Repito o que já disse noutras opiniões publicadas neste blogue: Umaro Sissoco Embaló é comprovadamente incompetente, mas não é ingénuo no modo como se move no cenário político guineense. Só os factos de ter ocupado cargos de Primeiro-ministro e agora de Presidente da República, para além de ter estado sempre próximo das mais altas rédeas do poder, são suficientes para compreendermos que ele sabe manejar os peões que formam o criminoso xadrez político guineense. Se não conhecesse os meandros do sistema podre que nos tem governado há mais de quatro décadas, Umaro Sissoco Embaló não chegava a merecer qualquer atenção pública. 

A entrar no último ano do mandato e depois da fulminante derrota dos seus capangas nas últimas eleições legislativas, Umaro Sissoco começa a sua esperada investida para uma eventual renovação do poder para mais 5 anos, a contar de 27 de Fevereiro de 2025. A sua estratégia não será difícil de decifrar e inclui:  provocações à ANP e ao governo da PAI-TR, dois órgãos que lhe fugiram de controlo com o desfecho das últimas eleições legislativas; investimento no seu populismo divisionista, que será disfarçado em "humildade" ou até em criar cenários de caos em que aparecerá como salvador; e, se não houver resistência à altura dos seus principais alvos políticos, concretizará a fabricação de uma crise política para, caso não lhe seja possível dissolver a ANP e consequentemente formar mais um governo da sua iniciativa (que está legalmente impedido de fazer até fim do seu mandato), manter esse cenário forçado de instabilidade até eleição presidencial. 

Todas estas estratégias do Umaro Sissoco Embaló já estão em marcha. No plano de provocações à ANP e ao governo, três passos foram concretizados: 1) mandou transferir os prisioneiros políticos da inventona de 1 de Fevereiro de 2022 para a prisão de Base Aérea, mesmo havendo uma decisão judicial para a libertação dos mesmos; 2) instrumentalizou os padeiros, semeando discórdia no seio da associação destes profissionais e conseguiu aparecer entre eles e o governo para parecer o protagonista principal para o entendimento que culminou com a baixa do preço do pão no país, quando se sabe que a baixa do preço de um saco de 50kg de farinha de trigo se deve à baixa das taxas aplicadas à importação deste bem de primeira necessidade; e 3) mantém audiências com a liderança sindical ilegal que ele, o Sissoco, mandou para assaltar a sede da UNTG-CS, numa clara afronta ao governo, que tem mantido contactos com a direcção legítima da central sindical. 

No domínio populista, os agentes do Umaro Sissoco Embaló já actuam em clara concertação de acções. A onda de conferências de imprensa de ataques ao governo e, sobretudo, à ANP, não passa de uma deliberada tentativa de forçar um aparente caos no espaço político e, desta forma, agitar o ambiente social para legitimar uma eventual destituição do parlamento, com consequências na queda do governo vindo das últimas legislativas e instituição de um novo governo à imagem do desatre liderado por Nuno Nabiam durante os últimos três anos.

O plano está em execução, no PRS, tem o Ilídio Té e Fransual Dias a garantirem a oposição à direcção do partido e desestabilizá-la o máximo antes da próxima eleição presidencial. A finalidade é de tentar a rendição da direcção liderada por Fernando Dias face aos ataques de que será alvo dos agentes do Umaro Sissoco Embaló no PRS. Caso não se concretize esta primeira intenção, procurar-se-á pelo menos dividir o partido e tirar proveito das suas fragilidades na captura de votos na próxima presidencial. Este último objectivo estará mais próximo de ser concretizado, porque Ilídio Té dispõe de dinheiro suficiente, resultado de rombo ao tesouro público enquanto Ministro das Finanças, para investir na compra de aliados na guerra a ser instalada no PRS. 

No MADEM G-15, apesar do conflito interno com o seu "rival", Braima Camará, o partido não será difícil de ser mobilizado para cumprir a sua missão parlamentar de tentar o possível para encenar caos na ANP e legitimar uma eventual dissolução deste órgão de soberania. Em caso de escolha, estarão sempre ao lado do Sissoco na tentativa de alterar o actual cenário governativo. Aliás, a bancada parlamentar deste partido até já indicou uma data ao Umaro Sissoco Embaló para dissolver o parlamento, numa manobra que procura fintar a impossibilidade Constitucional de o seu chefe distituir o parlamento antes da próxima eleição presidencial. 

Através da comunicação social e das redes sociais, já está em curso a prática de uma onda de ruídos dos seus serviçais a tentarem transmitir a ideia de que o Presidente da ANP e líder da PAI-TR estará a provocar uma crise entre o órgão que lidera e a Presidência da República. Basta visitar o perfil de Facebook do principal conselheiro do Sissoco, Delfim da Silva, para compreender as linhas orientadoras deste plano de invenção de uma nova página na criminosa crise política que se torna ordem entre nós. 

Por enquanto, as tentativas do Sissoco têm resultado sobretudo no reforço e consolidação da sua principal base de apoio político e junto de algum sector político sem expressão eleitoral previsível, nem capacidades de praticar mobilização política para além do espaço virtual, que, apesar de ter estado a ganhar relevância no contexto guineense, ainda não constitui um elemento decisivo na produção do poder. Mas é uma máquina que pode servir para integrar a produção do caos. Também tem conseguido operar alguma fragilização do governo liderado por Geraldo Martins. Os três exemplos dados acima são ilustrativos deste facto. 

Se olharmos para o modo como a coligação com a maioria parlamentar tem estado a lidar com as investidas do Umaro Sissoco Embaló, compreendemos uma dinâmica divisível em dois momentos. Primeiro, deixaram-se enganar pelo apelo à trégua do ditador. A ingenuidade política da liderança da PAI-TR não lhe permitiu reparar logo que o Sissoco só estava a pedir algum tempo para se reconstituir em força para novas tentativas de sufocar os seus alvos, sendo a PAI-TR o principal a abater. Num segundo momento, inaugurado pela reacção do líder da coligação e Presidente da ANP às acusações do Sissoco, a PAI-TR revela-se disperta do sono estúpido em que queriam mergulhar para o seu auto-flagelo. 

Sissoco é um ditador e os ditadores apenas são derrotados através de combates sem tréguas. Se se continuar no medíocre apelo ao bom senso e na mesquinhez, abdicando de confronto político, a única arma razoável para desmontar o populismo autoritário do Umaro Sissoco Embaló, abre-se-lhe o caminho para replicar a estratégia com que retirou a maioria parlamentar ao PAIGC no início de 2020. E confrontar o ditadorzeco não precisa de ser feito através de golpe de Estado, nem através de coisas parecidas. É uma questão de não lhe ceder espaços de manobra, nem na sua tentiva de instituir medo e instabilidade no seio do governo e da ANP, muito menos nas suas investidas populistas aqui referidas. Umaro Sissoco Embaló tem de ser combatido até ser removido do poder, ou a sua ditadura se renova e será mais difícil acabar com ela. 

Sumaila Djalo 

Comentários

  1. Nem mais. Acresce dizer que todas estas manobras em várias frentes, apenas servem para mostrar a sua fragilidade e insegurança pois pelas suas características de psicopata e de menino de rua sem nenhum tipo de educação ou civilização, já teria derrubado o Governo e a Assembleia Nacional se lhe tivesse passado pela cabeça, por um segundo que fosse, que teria o apoio inequívoco das Forças Armadas e da população. Está neste momento, aflito! Por isso é que está a "disparar" disparates por todo o lado. Desta vez, com recurso ao maior lampedor de botas que alguma vez apareceu na nossa terra: o sr. Delfim da Silva! O povo não tem medo do "lobinho mau" (sim, lobinho, porque nem de Lobo tem perfil o falso general!). Desta vez NÃO PASSARÃO!

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  2. Quiz dizer "ao maior lambedor de botas..."

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  3. Lembro-me bem de alguns dias após a tomada de posse e substituição do governo em fevereiro de 2020, ter dito e escrito a uma amiga guineense a quem felicitei (pela nossa amizade), por ir fazer parte do novo governo, de que não teria dúvidas, porém de que tudo aquilo que se anunciava iria fazer jus ao velho ditado tuga de que “Atrás de mim virá quem de mim bom fará”!

    Respondeu-me com uma série de emojs de espanto e gargalhadas, mas sem nunca o ter confirmado e continuando hoje a defender o indefensável, no fundo ela sabia, como todos nós sabíamos, que era isso mesmo que tristemente se projetava no futuro do país.

    O que se torna difícil prever em todo este novelo que o PR enrolou, com o claro objetivo de se tornar o “dono disto tudo”, é como sair dele sem criar problemas internos, sem envolver militares nem problemas sociais/étnicos, tão do agrado do PR.

    Neste colete de forças em que o país se encontra mais uma vez, aplicando um velho ditado tuga eu diria que “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”!

    Infelizmente assim tem sido desde a Independência, e a pergunta que fica é, até quando?

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