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"Golpe de Estado" na Guiné-Bissau? Golpe de quem? Contra quem?

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Vamos aos factos... A Guiné-Bissau foi à votação para as presidenciais e legislativas, em simultâneo, no passado 23 de Novembro. As eleições foram convocadas num contexto de ditadura que já dura 6 anos e comandada por Umaro Sissoco Embaló. A Comissão Nacional de Eleições (CNE), responsável pela organização do processo eleitoral, tem uma direcção caduca há 3 anos, mas conveniente ao Sissoco. O Supremo Tribunal de Justiça (STJ), entidade suprema da justiça guineense e instância máxima de fiscalização do processo eleitoral em todas as suas fases, tem um presidente imposto através de um processo eleitoral viciado, conduzido por Sandji Fati, um dos principais serviçais do ditador, indicado por uma presidente da Assembleia Nacional Popular (ANP) imposta por Sissoco. Os principais adversários políticos do tirano, com destaque para a PAI-Terra Ranka (de que faz parte o PAIGC) e o seu líder Domingos Simões Pereira, foram abusivamente impedidos de concorrer às eleições.  Ainda assim, os gu...

Crónica da Cimeira de debandada

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  Encerrou-se a XV Cimeira da CPLP ontem em Bissau, capital da terra do Único Chefe.  O certame de Portugal e suas ex-colónias passou a presidência rotativa à Guiné-Bissau, na ausência dos presidentes dos dois Estados hegemónicos da organização: Portugal e Brasil. Para este último a CPLP tem sido um palco de recreio internacional, porque os espaços geopolíticos em que melhor actua são os dos BRICS e do MERCOSUL. Para Portugal foi a primeira ausência de um Presidente da República em três décadas, facto que inevitavelmente marcou a reunião. A CPLP é o único palco onde Portugal consegue disfarçar uma inexistente relevância geopolítica, porque não passa de um Estado periférico na mandjuandadi ocidental. O Presidente de Angola também não esteve. A minha opinião sobre a CPLP é pública e muito anterior à cimeira de Bissau. Se quiser conhecê-la, clique sobre este azul . Mas posso retomá-la aqui em traços gerais: é uma organização ao serviço das pretensões neocoloniais e geopolíticas ...

Diima e uma mandjuandadi musical que marcará "No Tempo"

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  No seu primeiro álbum,  Korson di Tambur (sobre o qual tive enorme gosto de traçar um olhar aqui ), Diima já nos tinha permitido conhecer a essência da sua identidade musical, alicerçada nas influências inspiradas pela sua longa vivência no Brasil e de outras realidades musicais, mas com as raízes bem assentes no diverso chão cultural guineense. O próprio título do álbum anunciava este elemento central no seu ideal artístico. Aquele álbum é de uma musicalidade ímpar no universo do rap guineense.  Cinco anos depois desse magnífico trabalho, Diima regressa às nossas colunas com No Tempo ("O nosso tempo", traduzido da língua guineense). São 10 faixas musicais que não só superam na qualidade o álbum anterior, o qual, repito, foi de uma excelente execução artística, mas consegue mais e, sem reserva no que a seguir afirmo: estabelece uma nova concepção sonora, melódica e lírica que representará, no panorama musical guineense em geral (não só na sua vertente do rap e derivad...

'Amadu Mussa' - a crónica de "sakudi bunda no bai"

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  Foto: Escola de Filosofia Pedro Mota Fidju nunka padidu tras di si mame - Provérbio guineense  Um pedido antes de me esticar: não seja o pobre deste texto julgado pelo seu título, porque, mesmo que se descubra no fim que não passa de um rascunho impostor, com pretensão de perturbar o falso moralismo vendendo moral ele mesmo, não deixa de ser um todo, um texto, e não um título ou um parágrafo. Imagino-me neste momento sentado no chão desnudado do Estádio Lino Correia, de bunda no chão, literalmente, e a discutir política com pessoas que me são próximas, pessoas amigas, digamos, porque só estas devem saber que respiro política desde os meus 14 anos de idade.  Mais ou menos. Tema da conversa? " Baluris torkiadu / agu bida forinha / djunta mon / bida mara mon" . A cantora? Karyna Gomes . A música é uma extraordinária reflexão sobre os descaminhos da sociedade guineense, que alguns preferem retratar de sociedade de  kakris na kabas , metáfora para as lutas intestinais p...

Nunca mais é 27 de Fevereiro! Crónica de uma contagem crescente

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Foto: António Amaral/Lusa "Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito" - Martin Luther King Jr. Desde o final de 2024 que os tambores têm soado a avisar que 27 de Fevereiro de 2025 estava à porta do mandato do Simbólico que há cinco anos se fez de Único Chefe na Guiné-Bissau. Pois sim, no dobrar do mês que agora começa, Umaro Sissoco Embaló completa os 5 anos estabelecidos pela Constituição da República da Guiné-Bissau (CRGB) para um mandato presidencial, obrigando a que, neste caso, o novo Presidente da República (PR) fosse empossado no mesmo dia em que acaba o mandato do Presidente cessante. Mas, ao seu estilo, Umaro Sissoco enfiou gandi nos ouvidos para não ouvir o som dos tambores de alerta e criou uma legião de serviçais que argumentam a favor do prolongamento do seu mandato. Entre eles, curiosamente, está um tal de Partido Luz da Guiné-Bissau (PLGB), cujos cabeçários co-protagonizaram uma ...

Combater o ditador e não a sua sombra

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  Foto: Facebook do Umaro Sissoco Embaló  "Se um ladrão assaltar a minha casa e eu tiver uma arma, não vou atirar contra a sua sombra. Tenho de disparar contra o bandido. Muitas pessoas perdem energia e esforço e fazem sacrifícios a combater sombras. Temos de combater a realidade material que produz a sombra. Se não podemos mudar a luz que é a causa da sombra, podemos pelo menos mudar o corpo. É importante evitar a confusão entre a sombra e o corpo que projecta a sombra." -  Amílcar Cabral (in A Luta Criou Raízes, 2018, p. 322) Na segunda volta das presidenciais de 2019/2020, fiz uma declaração pública do meu voto no Domingos Simões Pereira, candidato do PAIGC que se opunha ao Umaro Sissoco Embaló, apoiado por MADEM G-15, PRS e APU-PDGB ( ler aqui ). Não o fiz por mero protagonismo, muito menos por me considerar um cidadão especial. Fi-lo por preocupação com o rumo que o nosso país tomaria com Umaro Sissoco Embaló na Presidência da República. Enquanto Primeiro-ministro do...

"Não nos deixam governar" - crónica de vitimismo demagogo

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  Foto: Facebook do PAIGC  Kuma ku bu lestu ku diskisi  nunde ku bu da ba tapada  bu bin lembra nunde ku bu kai?  Ke ma bu lestu ku diskisi! - Aliu Bari  "Não nos deixam governar", ou "deixem-nos governar e vejam qual será o resultado". As duas frases são-nos familiares. Não são minhas. Quem as tem repetido são os dirigentes do maior partido guineense, PAIGC. Aquele que mais tempo esteve no exercício do poder e que só não venceu 2 das 11 eleições realizadas na Guiné-Bissau desde 1994. Elas transformaram-se no seu cliché preferido desde o capítulo da crónica crise política inaugurado em 2015, quando José Mário Vaz, eleito Presidente da República como seu candidato, decidiu romper o partido ao meio e semear o precedente que levaria Umaro Sissoco Embaló  a ser o seu sucessor. Mas a quem o PAIGC pede para lhe deixar governar? Ao povo não será, porque este sempre lhe deu o seu voto e a sua fidelidade constantemente traída. São aos seus principais adversário...

O que liga a ditadura do Sissoco ao narcotráfico?

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Foto: Facebook do ditadorzeco  Fidju nunka padidu tras di si mame - provérbio guineense  De acordo com resultados de vários estudos , a ligação entre as redes de tráfico de drogas e figuras cimeiras das instituições do Estado da Guiné-Bissau remonta de 2005, na corrente do regresso de Nino Vieira ao poder, depois de seis anos de exílio em Portugal.  De lá para cá, têm sido constantes os episódios de apreensão de toneladas de cocaína no país, com envolvimento de lideranças políticas e militares no seu negócio. Esta reflexão não pretende retomar a longa história de narcotráfico na Guiné-Bissau, que pode ser acompanhada nos estudos referidos no início do texto. Mas pretende pontuar incidentes de tráfico de cocaína ocorridos nos últimos cinco anos e como eles se ligam ao regime no poder.  De acordo com as conclusões da investigação jornalística conduzida por Micael Pereira , do jornal português Expresso, António Injai, Papa Camará (Chefe da Força Aérea) e Mamadu Nkrumah...

A "Comunidade Internacional" nunca resolverá os problemas da Guiné-Bissau

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  Imagem: Nações Unidas na Guiné-Bissau  "Comunidade internacional" - note-se que coloco a expressão entre aspas - é como se normalizou chamar o conjunto dos organismos multilaterais - regionais e mundiais - onde Estados-membros têm assentos e se dizem submetidos a acordos, tratados, cartas... enfim, a um conjunto de regras que são supostas garantir a prática dos valores que dizem defender e a igualdade de tratamento entre os  Estados-membros. Tudo isto, teoricamente, até soa bem. Mas como é que estas organizações funcionam na prática? Não antecipo a resposta. Prefiro traçar uma breve reflexão, partindo de um olhar ao histórico das principais intervenções destas entidades na Guiné-Bissau desde a abertura democrática, com a certeza de que este exercício responderá à pergunta. A dissolução contra-constitucional da Assembleia Nacional Popular (ANP) por Umaro Sissoco Embaló, em Dezembro de 2023; a instituição do fenómeno de pantchidura (machadada) em dois dos principais part...

Brincámos com o fogo e queimámo-nos

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  Foto retirada do Facebook do ditadorzeco  Quem brinca com o fogo queima-se - ditado popular  A cronologia da instituição do absolutismo que hoje governa a Guiné-Bissau é por todos nós conhecida. Mas vale a pena retomá-la aqui para uma série de 5 artigos que conto publicar neste blogue ao longo do mês de Outubro, porque Novembro é mês de mais umas eleições de fantochada na Guiné-Bissau e, desta vez, com o tapete vermelho estendido ao Umaro Sissoco Embaló e aos seus serviçais para, através de voto popular, legitimar e consolidar uma ditadura.  Como é que Umaro Sissoco Embaló tomou a posse para o cargo do PR? Ignorou um contencioso eleitoral a decorrer no Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e organizou uma sessão que ele mesmo baptizou de "simbólica", presidida por Nuno Gomes Nabiam, com ampla protecção das forças armadas guineenses, e proclamou-se PR. Eu acredito que ele tenha vencido as presidenciais de 2019/2020. Mas a posse unilateral e contra uma ordem judicial su...

Crónica de pantchidura do MADEM G-30

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  Quem semeia vento, colhe tempestade (provérbio de autoria atribuída ao Profeta Oséias) Desde o regresso apocalíptico de Bá Quecuto a Bissau em Fevereiro deste ano, após ter-se retirado para Portugal na ressaca da derrota eleitoral do MADEM G-15 nas legislativas de Junho de 2023, a relação azeda com Umaro Sissoco Embaló, seu afilhado na mafiosa política guineense, transformou-se em confrontos públicos e nunca mais foi como quando lhe segurava na mão para ser nomeado Primeiro-ministro pelo JOMAV. Naquele dia, lembremo-nos, Braima Camará fez o grito que anunciava a nova que só ele não sabia até então: Es i ditadura! A Guiné-Bissau encontrava-se no rescaldo de mais um golpe Constitucional praticado por Umaro Sissoco Embaló, que resolveu violar escancaradamente a Constituição da República para dissolver o parlamento. Conhecemos o resto da história, do papel activo do MADEM G-15 nesse golpe e de como o seu coordenador Braima Camará insiste em apregoar o seu suposto compromisso com a le...

O lado político do #Euro2024

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Termina hoje o campeonato europeu de futebol, #Euro2024. Uma competição que em termos desportivos tem muito que se comente, desde a desastrada última participação do Cristiano Ronaldo, o melhor futebolista português de sempre, até a eliminação precoce do campeão em título, a sempre "temível" Squadra Azurra, Itália. Mas essa tarefa ficará para aqueles que ainda se empolgam com a bola a rolar em diferentes provas de futebol mundial.  Eu quero comentar o lado político do Euro 2024 e anotar exibições de grande categoria a contrariar a falácia de que o futebol não é também um terreno de disputas ideológicas e de debate político.  A França foi eliminada nas meias finais. Mpappé, o melhor futebolista francês da actualidade, esteve longe do seu melhor nível em termos desportivos. Porém, a sua presença no Euro ficou marcada pelo apelo frontal ao voto contra a extrema-direita no seu país. Mbappé não estava à procura de sair bem na fotografia. Ele é negro, filho de imigrantes africanos,...