Uma salada política à moda guineense
Foto: através dos bastidores do FSD
Kuma ku bu lestu ku diskisi
Nunde ku bu da ba tapada
Bu bin lembra nunde ku bu kaiKe, ma bu lestu ku diskisi! (Aliu Bari, in Ngrateza)
Bissau, 28 de Março de 2024, Hala Hotel. O palco foi montado. A caravana de seguidores instalada (dizem-se militantes e simpatizantes). Carros de alta cilindrada que transportavam os líderes políticos que mais pareciam actores de qualquer coisa estacionados na garagem do hotel. Alguém ousa dizer que não saiba que esses carros foram comprados com o dinheiro de roubo ao nosso Estado?! Tudo filmado ao pormenor pelas lentes de telemóveis que alimentam as suas páginas de propaganda nas redes sociais. Tentarei questionar esta última secção política tragicómica nos próximos parágrafos, invertendo a ordem da aparição dos actores no palco, isto é, kabesa bas, pe riba, que me parece a ordem que melhor combina com a natureza do espectáculo.
Braima Camará, anunciado mais tarde como coordenador do recém-criado Fórum para a Salvação da Democracia (FSD), apareceu vestido de um alto dignitário mandinga, com as pontas do seu grande bubo a cairem-lhe sobre as mangas da camisa interior. Tudo de branco, talvez a simular mais uma jogada de mestre para convencer aos seus correligionários do MADEM G-15 e aos mais descuidados dos guineenses de que seja esse o verdadeiro "Bá de Povo", homem de paz e novo pregador dos valores da democracia!
Braima Camará voltou a discursar contra o divisionismo étnico e religioso. Juramentou ser um líder político a lutar pela afirmação do estado de direito e democrático na Guiné-Bissau. Mas como diskunfiadu i gatu ku limbi nata, Bá Quecuto escolheu que fosse esse o momento para pedir desculpas ao povo guineense. Justificou-se de forma simplista pá! Disse que não sabia que as coisas seriam assim com o dito cujo que ajudou a tornar-se PR da Guiné-Bissau. Todos sabemos que isto seja mentira. Braima sabia que Sissoco era autoritário, como todos sabíamos antes de ele assumir o cargo de PR. Tinha sido Primeiro-ministro e foi o que foi, no descurso e na acção, até mesmo em ser um tribalista de primeira laia.
Braima Camará quis convencer-nos do seu nobre compromisso com a democracia e legalidade constitucional. Aliás, até levou uma cópia da Constituição da República da Guiné-Bissau para mostrar que ele a ama, que a respeita como ninguém. Mas o Braima Camará esqueceu-se de lembrar (não é redundância) que nós sabemos o momento que estamos a viver: ANP impedida de funcionar por uma decisão contra-constitucional de Umaro Sissoco Embaló e com decisivo respaldo político da bancada parLAMENTAR do MADEM G-15 e de todo o partido. Que o Bá Quecuto reveja os arquivos do seu partido para confirmar que existiram comunicados que homologavam a escancarada violação da sagrada constituição que nos quis mostrar na apresentação pública do FSD. Ou naquela altura ainda não se tinha casado com a "lei magna"?!
Depois foi Fernando Dias, escolhido para vice-coodenador do FSD, a subir ao palco. Ao mestre do espectáculo foi dito para explicar aos seguidores na sala de que este pequeno couro seria afinal partilhado com Nabiam. Dias parecia uma cópia de Kumba Yalá, não fosse o seu tom de pele mais claro do que o de Kobde Nhanka. De fato preto, cachecol com as cores do PRS em volta do pescoço e o inevitável barrete vermelho para dissipar as dúvidas que pudessem existir sobre a sua identidade brassa e de ser ele o legítimo herdeiro do trono entregue por Kumba Yalá ao Alberto Nambeia. Até o seu discurso parecia vir de um kasisa acabado de ser solto na tumba do fundador da sua tribo política.
Verdade seja dita, entre os que têm proganozado a comédia política naquilo que agora chamam de Frente para a Salvação da Democracia, Dias é o que está mais próximo do mínimo de coerência exigida. Mesmo que seja para disfarçar as artimanhas tão bem conhecidas do PRS. Dias não aceita a dissolução contra-constitucional da ANP; recusa-se a ir para as presidenciais para além do tempo determinado pela Constituição da República; ataca a situação de assalto em que o STJ se encontra; e defende o direito total de os cidadãos guineenses se expressarem sobre o seu país sem serem perseguidos. É uma posição que o PRS não teve quando tomava "boas notas" sobre a flagrante violação da Constituição por Sissoco ao dissolver a ANP e de seguida ter os seus membros no governo do Furkuntunda. Mas, se "mais vale tarde do que nunca", temos de admitir que o sentido da ruptura com o absolutismo sissoquista que o Dias propõe seja mais ousado e coerente com a defesa da democracia e constitucionalidade.
Finalmente, Nuno Nabiam foi o recebido no palanque do banquete em pleno mês de Ramadão e ao meio de Páscoa. Ele que viu a alcunha de Ndangmésse ser substituída por outra que ainda não sei reproduzir (desculpem-me a falta de jeito, mas só desta vez). O traje apresentado pelo dono da APU-PDGB não era o que se lhe reconhecia. Mas havia explicação, afinal. Depois de ter lembrado aos seguidores presentes na sala das suas passagens por Ucrânia e EUA a estudar coisas sobre aviões, anunciou a ida, agora, à "universidade balanta" para a qual os homens grandes lhe haviam convocado. Serão dois meses de ausência e de desfalque para o FSD. Embora não tenha dito nada de especial, fiquei com a desgraçada sensação de ter sido a melhor intervenção pública de Nuno Acordos Nabiam, o Primeiro-ministro mais inútil da história da humanidade.
Porém, o Nuno, como Braima Camará, continua a balbuciar quando fala das eleições. Fala em realização das presidenciais e das legislativas, o que denota a sua aceitação à dissolução contra-constitucional da ANP. Essa gente tem de ser mais séria pá! Então como é que uma pessoa juramenta ser defensora dos valores da democracia, da Constituição e da liberdade, mas tem medo de contrariar uma decisão flagrantemente contra-constitucional de dissolução do parlamento?! Sei que sabemos a resposta: Nuno Nabiam e Braima Camará lideram partidos que jogaram os dados activamente no parlamento para dar espaço de o Sissoco dissolver a ANP contra aquela mesma constituição que, no seu antigo 94, é clara a determinar que aquele acto era impossível.
Agora é hora de terminar esta crónica da salada política à moda guineense com um recado ao Dias, que se demonstra mais coerente nessa mistura de alhos e bugalhos: 'Fernando Dias, olha, diz ao kota Nuno Nabiam para dizer ao Braima Camará, mentor do ditadorzeco Umaro Sissoco, para abrirem a página da Constituição da República onde está fixado o artigo 94. A seguir, que leiam esse artigo e voltem a lê-lo. Se necessário, que peçam a sua tradução para balanta e mandinga (neste caso até posso ajudar). Depois é começarem a sua juramentada luta pela afirmação da democracia na Guiné-Bissau a partir da prática desse artigo, porque diferente disso será brincadeira de ndule-ndule, que só não digo doutra forma por alguma consideração às posições do Fernando Dias contra o ex-Único Chefe desde as últimas eleições legislativas em 2023', o que não quer dizer que eu seja simpático ao político que ele é, convém fechar com esta desconfusão.
Sumaila Djalo

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarWell done, Sumaila 👏🏿 🇬🇼💪🏿❗️
ResponderEliminarDeep, and at times light. Analytical to the core, humorous with subtle satirical inclinations that appeal for a good and enjoyable reading 📚 ☻️❗️
BUT...Make no mistake he smacks it "Bang on!" & "right on the money!" on all the essential facts about these 3 characters, (to say the least).
As mentioned above, I reiterate that it is a delightful reading backed by solid information (di kil tipo di anima djambatútú di nó cérebro).
I also liked his recommendations for all of "them" (the 3 characters) at the END. 🇬🇼💪🏿❗️
É difícil acreditar que esses três nomes, sejam lideres de três dos quatro maiores partidos da Guiné-Bissau.
ResponderEliminarÉ fácil acreditar que o país esteja na situação em que se encontra, com estes lideres partidários.
É difícil acreditar que ao seu acordo tenha sido dado o nome de Fórum para Salvação da Democracia, sem que tal seja visto como um insulto á inteligência do povo Guineense.
É fácil chamar a estes senhores troca tintas, mas os profissionais das pinturas iriam sentir-se insultados e parece-me que com razão pela nobreza da sua profissão.
É difícil acreditar em acordos feitos por lideres que amiúde mudam de ideias, mais rápido que a maioria de todos nós mudamos de camisa.
É mais fácil acreditar que um elefante passe pelo buraco de uma agulha do que acreditar na bondade e na durabilidade deste acordo.
É difícil chamar a este Fórum de Salvação da Democracia, quando os três lideres que o compõem desde pelo menos os últimos quatro anos, andaram a apoiar, bajular e alimentar aquele que hoje apelidam de ditador e antidemocrata.
É fácil desistir de acreditar e confiar na generalidade dos políticos Guineenses quando estes mesmos pseudo salvadores fizeram parte do grupo de governantes que nos últimos anos ajudaram a delapidar o património do país, desrespeitaram por completo as regras da democracia, desprezaram o voto do povo, mantêm esse mesmo povo prisioneiro da miséria, sem um sistema educativo a funcionar, sem um sistema de saúde a responder ás necessidades mínimas, enfim um povo e um país abandonado e ao deus dará, enquanto enriquecem e transformam as suas vidas sociais e politicas em verdadeiras feiras de vaidades.
É difícil conhecer o passado destes lideres e acreditar que eles vão lutar pela salvação da democracia.
É tão difícil tirá-los do poder, como fácil seria alterar o paradigma dessa Terra fértil de riquezas e transformá-la numa terra desenvolvida e próspera!
Marcelo Marques, adorei ler a suas reflexões e a sua aclamação (tomei-la como se de um poema se tratasse). Congratulo-me por ser um "sorteadu" de ler o seu post e agradecer-lhe pela sua GUINEANDADI ☻️💪🏿🇬🇼❗️
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