Bastará ter mulheres e jovens na política?

Foto: A. Baldé 

Talvez seja fácil imaginar a minha resposta à pergunta que faço no título desta reflexão. Porém, antes de assumi-la, pensemos nos seguintes dados do Ministério da Economia e Instituto Nacional de Estatística, reunidos no Inquérito de Indicadores Múltiplos realizado entre 2018 e 2019. Na Guine-Bisau, apenas 32.6 % das mulheres entre 15 a 49 anos de idade são alfabetizados, das quais só 2.1 % frequentou o Ensino Superior. Para os homens, estes números são, respectivamente, 52.3 % e 4.8 %. Para quem não anda de olhos vendados sobre as gritantes desigualdades e injustiças sociais no nosso país, estes números não serão nada surpreendentes e chega-se facilmente às razões de ordem cultural, política e económica que sustentam este quadro particularmente penoso para as mulheres e jovens. 

Não cabendo aqui todos os números sobre os outros indicadores do mesmo inquérito que dão maior percepção sobre a situação da população guineense em geral, consideremos os indicadores acima referidos sobre a educação para traçarmos as seguintes perguntas: Que políticas públicas exitem para contrariar essas desigualdades de acesso aos serviços básicos para a população do país e para as camadas sociais mais vulneráveis em específico? A resposta é simples e é NENHUMA. O que fazem os sujeitos com poder de influência capaz de provocar melhorias nesse sentido, sobretudo a favor de mulheres e jovens, aos quais o Eatado nega sistematicamente os serviços mais básicos como educação e emprego que garantam uma condição de vida dignificante? Se a resposta não for NADA, então não andará muito longe disso. 

Limitando esta reflexão às mulheres com ascensão aos círculos de poder com possibilidades de adopção de políticas para a libertação das mulheres guineenses da subjugação de que são vítimas de um sistema político de matchus, verificamos que esmagadora maioria delas não tem qualquer compromisso com as várias agendas femininas em luta para mais igualdade e justiça sociais. Pelo contrário, identificam-se com e alimentam o sistema político e social masculino que produz e alimenta essas desigualdades, quer através da sua acomodação aos seus mecanismos para a salvaguarda dos seus privilégios, quer através de patrocínio de agendas populistas no seio das camadas femininas mais permeáveis à manipulação para fins políticos sobretudo eleitoralistas e, por isso, circunstanciais e desprovidas de objectivos tranformadores da situação de subjugadas em que as mesmas se encontram. 

O mesmo se pode dizer em relação aos jovens que se envolvem na política e chegam a lugares que possibilitam advogar por mudanças estruturais que permitam mudanças concretas na camada social a que pertencem. Embora os motivos das suas ascensões a esses lugares sejam, geralmente, por terem liderado alguma organização juvenil ou tenham alguma influência sobre essa parcela da população, os seus exercícios na administração política e estatal são canalizados para a manutenção dos seus estatutos de privilegiados e de calibragem da máquina de propaganda que garante a continuidade das suas facções políticas no poder. 

Sou de opinião de que é importante os jovens e sobretudo as mulheres se envolverem na política, mas se essas militâncias não forem para denunciar e desestabilizar de dentro o sistema político corrupto e clientelista que há anos nos tem sob o seu domínio predador e, desta forma, mudar este cenário que mais parece uma relação de predação em que os mais privilegiados tudo podem contra os mais injustiçados, os jovens e as mulheres continuarão a servir apenas de instrumentos de propaganda política daqueles que sustentam as desigualdades e injustiças de várias ordens a configurar o nosso dia-a-dia enquanto povo e particularmente enquanto camadas sociais mais facilmente apanhadas pela armadilha com que somos deixados na miséria e depois acrditarmos que os mesmos projectos políticos que nos empurram estrategicamente para a miséria é que nos irão tirar dela. 

Não basta ter mulheres e jovens na política para as pautas das mulheres e da juventude serem atendidas através de políticas públicas engajadas em transformar o estado actual de instrumentalizados que estas duas camadas sociais representam. É preciso que as militâncias das mulheres e jovens - seja em que partido elas forem - tenham o compromisso de transformar, para melhor, a sua situação actual. 

Sumaila Djalo 


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