Conhecemos os nossos ladrões e apoiamo-los

Olhando para aqueles e aquelas que hoje governam o nosso país, muitos deles figuras que já fizeram parte de todos os tipos de governos que já tivemos, ocorrem-me as seguintes perguntas: Ainda continuamos a não conhecer os nossos ladrões ou preferimos fingir que não os conhecemos? Se os conhecemos e não os denunciamos, nem nos distanciamos deles, ou chegamos mesmo a servir de veículos da sua propaganda para continuarem a roubar-nos o presente e o futuro, como pensamos que somos inocentes da desgraça que vivemos? 

Em vez de responder a estas perguntas de forma directa, correndo o risco de não ser suficientemente claro nas minhas tentativas de resposta, convido a quem me lê a reflectirmos sobre como somos cúmplices da nossa desgraça na Guiné-Bissau, quando convidamos os nossos ladrões a serem parinhos e/ou madrinhas dos nossos eventos, tornando-nos, desta forma, instrumentos de limpeza moral e projecção política daqueles/as que sabemos serem responsáveis por projectos políticos que nos mantêm no cativeiro em que vivemos há meio século. 

Assim, sem grande esforço de memória, vejo: 

- estudantes de escolas públicas a convidarem pessoas que participam nos governos que afundam as suas escolas no total desfuncionamento a apadrinharem cerimónias de diplomacão e festas de finalistas de 12° ano, esmagadora maioria dos quais não passarão desse nível de estudos, porque os seus padrinhos e madrinhas fazem tudo para a educação continuar como está no nosso país: uma nulidade;

- músicos que escolhem esses mesmos "ladrons di pubis", como lhes chamou o Zé Manel Fortes, para apadrinharem os seus concertos ou mesmo as suas carreiras. A maior parte destes casos é feita de cantores com músicas que se chamam de intervenção, onde denunciam as maldades de que, paradoxalmente, os seus padrinhos são os responsáveis;

- organizações, plataformas, associações (como quiserem chamá-las) de jovens que homenageiam, nos seus eventos, pessoas envolvidas nos graves crimes financeiros, ambientais e até sociais contra nós, sobretudo contra jovens, com idades que lhes deviam interpelar a olhar para futuro com maior capacidade crítica sobre as acções que comprometem esse mesmo futuro. 

Haverá sempre quem olhe para estes apdrinhamentos como sendo oportunidades para parte do povo recuperar o dinheiro que lhe foi roubado pelos padrinhos e madrinhas da sua desgraça, mas eu vejo camadas sociais e profissionais empobrecidas a servirem de veículos de manutenção da sua condição de pedinte de migalhas a pessoas que ajudam a consolidar o seu poder de continuarem a fazer o que bem entenderem com o dinheiro dos nossos impostos e resultantes de endividamentos que mantêm o nosso Estado com uma soberania em retalhos. 

Não é de governantes padrinhos e madrinhas que precisamos no nosso país, mas daqueles que governam para que as escolas formem pessoas capazes de transformar o seu meio para nele viverem com dignidade; que os músicos e todos os profissionais de cultura tenham autonomia sobre o seu trabalho; que toda a juventude e a população em geral tenham possibilidades de desenvolver o seu talento e ser independente das teias de instrumentalização da sua vulnerabilidade. 

Viver com dignidade não pode ser apadrinhado!

Sumaila Djalo

Comentários

  1. É habitual estes actos no nosso país, infelizmente.

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  2. O pensamento de "djitu Ka ten" que abala a mente do povo guineense leva muitos a acreditar que atos como esses mudariam de alguma forma a mente impensante daqueles (des) governantes do país, pelo contrário quando são convidados para eventos como esses para eles nos seus pensamentos egoísta acreditam "estar no caminho certo" por isso estão sendo honrados pelos ditos jovens esclarecidos.

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