Eleições num contexto de ditadura é distração
Ontem, mais uma vez, deu-se início a campanha eleitoral na Guiné-Bissau, para eleições de escolha de 102 deputados à Assembleia Nacional Popular (ANP). O Ministério do Interior já veio apelar à colaboração dos partidos envolvidos no processo para um ambiente de segurança. Para além de irónico, o aplelo do Ministério do Interior contém uma dose muito consciente de cinismo, dado que é a mesma instituição que, apesar de a sua missão ser de garantir segurança à população, tem assumido, ao longo dos três anos do sissoquismo, a missão de espalhar terror e violência contra o povo que agora é chamado a participar naquilo a que hipocritamente se considera de festa de democracia no nosso país.
O despositivo eleitoral assegurado pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) é uma das poucas coisas confiáveis do Estado da Guiné-Bissau, porque os procedimentos logísticos e legais que levam às eleições garantem suficiente transparência na condução e desfecho do processo. Numa situação normal, bastaria que os partidos políticos concorrentes no processo tivessem delegados treinados a usar dos seus direitos na fiscalização do processo e que as entidades judiciais fossem independentes. Porém, a Guiné-Bissau, neste momento, nem constitui uma "situação normal", nem o aparelho judicial do país está perto de ser independente.
Começa-se a campanha eleitoral para umas eleições com uma CNE imposta por Umaro Sissoco Embaló, quando devia ser escolhida pela ANP, que o podia ter feito muito antes da sua dissolução, já que a vacatura vigente nas suas estruturas é anterior ao derrube do parlamento por Sissoco. Ademais, quem hoje é Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), José Pedro Sambu, para além de ter sido eleito pela imposição do regime comandado por Umaro Sissoco Embaló, contra todos os procedimentos legais para essa eleição, foi justamente o Presidente da CNE que não assinou uma acta que deveria proclamar o Presidente da República saído das últimas presidenciais, em 2020, abrindo caminho para um contencioso eleitoral que o STJ só concluiria após Umaro Sissoco ter-se autoproclamado Presidente à força e com a protecção dos militares guineenses.
Para completar a montagem prévia de captura das instituições que deveriam garantir a segurança e transparência do processo eleitoral em andamento, tanto a Procuradoria Geral de República como o Ministério do Interior estão sob os auspícios directos do ditador Umaro Sissoco. Aliás, quem lidera a última instituição é o principal pivô do regime, Soares Sambu, que acumula as funções do vice-PM e a do Ministro do Interior, primeiro, porque ajuda o seu chefe a fazer sombra ao Nuno Nabiam e, segundo, porque o Ministério do Interior é crucial para garantir a cobertura da vitória da sua ala nas legislativas, "custe o que custar", como vaticinou o seu último mentor político, José Mário Vaz.
Em paralelo ao sequestro das instituições responsáveis pela organização e fiscalização do processo eleitoral, a máquina de violência do regime opera uma verdadeira eliminação de obstáculos não controlados, através de raptos e espancamentos de cidadãos que ousam denunciar a ditadura imposta aos guineenses; perseguição de adversários e partidos políticos que ainda não fazem parte do regime; destruição ou fecho de órgãos de imprensa incómodos ao projecto totalitarista do Umaro Sissoco Embaló; assalto à sede da maior central sindical do país, como forma de silenciar as reivindicações dos trabalhadores pela melhoria das suas condições de trabalho; e uso do aparelho judicial para concretização de todos os actos terroristas em execução para, "custe o que custar", garantir que MADEM G-15, partido do Umaro Sissoco Embaló, e seus aliados sejam declarados vencedores das próximas legislativas.
A "oposição política" aceitar participar em eleições organizadas por uma descarada ditadura só pode ser porque, ou anda de olhos e pensamentos vendados, ou quer participar activamente no banquete da instituição do totalitarismo sissoquista (o que não me surpreenderia, porque são partidos políticos maioritariamente oportunistas), ou têm um plano que só é possível de realizar na ingenuidade com que têm encarado um regime que faz de tudo para a eliminar do mapa político do país.
Que oposição acredita ser possível vencer eleições organizadas por um regime liderado por alguém que prega a filosofia de "eu mando e eles obedecem"? Como é possível pensar-se decente não combater um ditador por vias mais consequentes, mas participar na legitimação das suas tentativas de mudar o sistema político, já de si frágil, à sua imagem e ao seu prazer? Que maioria parlamentar formada pela oposição política pode impedir o apetite totalitarista e ditatorial do Umaro Sissoco Embaló?
Também serão responsáveis por Umaro Sissoco Embaló consolidar a sua ditadura, "custe o que custar", todos os partidos políticos concorrentes a umas eleições orquestradas para legitimar o terrorismo do regime instalado no nosso país.
Sumaila Djalo

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