Engana-se quem pensar que isto já está resolvido
Foto: Presidência da República
O desfecho das últimas eleições legislativas na Guiné-Bissau inaugurou uma nova página na luta pelo poder. As trincheiras estão-se a reorganizar claramente para as próximas eleições presidenciais que, se não se criar nada de (a)normal, terá lugar entre o final de 2024 e início de 2025.
O vocabulário está a ser renovado de um lado e de outro. "Trégua" é a palavra-chave do Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló, que, apesar de manter o seu apetite absolutista, tem a noção da derrota sofrida pelo seu partido nas últimas legislativas como sendo um mau prenúncio para as presidenciais. Afinal o governo que empurrou o nosso país para o mais fundo dos infernos era da sua iniciativa. "Coesão", "unidade nacional", "perdão", etc., substituíram a ressonância do "império da lei" no cardápio discursivo do PAIGC, maior força política da coligação PAI-Terra Ranka, vencedora das eleições legislativas de Junho passado.
Para Umaro Sissoco Embaló, a mudança do conteúdo discursivo e comportamento cínico com o novo governo durante o tempo que falta para as presidenciais é uma estratégia obrigatória. Ele sabe que a pesada factura das legislativas ser-lhe-á renovada nas próximas presidenciais, se não dissimular o seu autoritarismo e fingir ser uma pessoa diferente do que conhecemos dele.
No entanto, Sissoco não é tão ingénuo como os seus principais adversários políticos o encaram. Para além de o seu principal objectivo continuar a ser o de manter o PAIGC e seus aliados longe do poder, estará atento a cada oportunidade para estrangular a acção governativa da PAI-TR e, assim, manchar-lhe o percurso que leva às presidenciais. Vai fazê-lo através de decretos provocatórios, como o último a nomear uma espécie de governo paralelo na Presidência da República; fa-lo-á através de interferências em assuntos de governação que não são da sua alçada; e através de tentativas de infiltrar emissários no centro da coligação que suporta o governo liderado por Geraldo Martins. Resta saber até que ponto a PAI-TR será capaz de se proteger, quando não só conta com um partido satélite do Umaro Sissoco Embaló na coligação que faz o governo, mas também persistem ameaças internas de ruptura. Os seus dirigentes sabem do que falo.
A PAI-TR sabe que, se o seu candidato às eleições presidenciais (Domingos Simões Pereira) não for eleito Presidente, o seu governo terá o mesmo destino que o de 2019, liderado então por Aristides Gomes. Porém, se a coligação partia com um nível de aceitação popular largamente confortável até anúncio dos resultados das últimas eleições legislativas, por conta dos três anos de destruição da Guiné-Bissau em todos os sentidos pelo regime do Único Chefe, a formação do novo governo deminuiu consideravelmente essa aceitação de quem vota nas eleições.
Entre muitas escolhas questionáveis, o elenco inclui figuras de competência duvidosa para as funções que lhes são atribuídas e outras com princípios éticos e morais questionáveis, sendo um dos casos uma afronta aos guineenses, por se ter envolvido, enquanto Ministro de Agricultura, em 2018, no roubo de arroz destinado à população mais desfavorecida. Adicionado a isto, contam os acordos pós-eleitorais com formações políticas envolvidas na ditadura cujo líder ainda se mantém presidente da república: PRS e PTG, sendo o caso deste último mais contestado, porque o seu líder tutelava o Ministério do Interior durante os três anos de raptos, espancamentos e perseguições políticas.
Os dirigentes, militantes e simpatizantes da PAI-TR podem fingir que não compreendem o sentido das contestações tanto às suas alianças pós-eleitorais, como à constituição do novo governo, mas o sentido da revolta do povo é claro e deve-se aos sacrifícios em que ainda vive, por responsabilidade de uma ditadura que se pretende higienizar por de falta de compromisso com os valores da democracia, escondido em discursos populistas e demagógicos. Os resultados de governação nos próximos três meses serão cruciais para recuperar a confiança do povo e relançar a força política para, pelo menos (repito: pelo menos), acabar com o Kim Jon-Umaro Sissoco Embaló nas próximas presidenciais. Mas não será suficiente, porque a luta política por parte do Sissoco não será pacífica, muito menos dentro dos limites da lei.
A PAI-TR tem de escolher entre duas opções que se lhe colocam: ou encarar o Umaro Sissoco Embaló como um adversário a sério, não fugindo de confrontos políticos absolutamente normais e até fundamentais para aniquilação política do ditador; ou continua na ingenuidade de apelo ao bom senso de um ditador declarado e disposto a tudo para garantir a sua continuidade na Presidência da República. Alimemtar a segunda opção não só ajuda o ditador a limpar a sua imagem perante o povo antes das próximas presidenciais, porque em jogadas populistas é superior a todos os seus adversários, assim como o coloca na mesma condição que o candidato da PAI-TR aos olhos da maior parte dos cidadãos eleitores, que demonstrou nas últimas legislativas saber o que quer para si.
A escolha ainda será vossa, até o povo ser chamado, de novo, a votar. Até lá, ganha quem souber o sentido de fazer política a sério, sem calculismos oportunistas e, sobretudo, com a noção clara de quem o povo não quer ver à frente dos seus destinos, porque qualquer conciliação com este ser-lhe-á mais benéfico do que àqueles que dizem estar a combatê-lo, mas na sombra da sua ingenuidade.
Sumaila Djalo

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