Da intolerância religiosa e cultural na Guiné-Bissau

 


Um à parte: escolhi a imagem de Polon para acompanhar a minha posição porque Polon representa, pelo menos para mim, entre muitos valores socioculturais, a boa convivência entre religiões, etnias e todas as expressões culturais que fazem a complexidade da Guiné-Bissau, "nação forjada na luta". No Polon estão os santuários das religiões de raiz africana, mas é também à sombra de Polon que, geralmente, se realizam as assembleias das aldeias e comunidades no interior da Guiné-Bissau para discutir assuntos de interesse público e, pela diversidade identitária que caracterizam as nossas aldeias/comunidades, essas assembleias podem integrar pepeis, mandjakus, fulas, mandingas, balantas, djakankas, etc., cada um fiel às suas crenças e seus valores. 

A boa convivência intercultural nem sempre caracterizou os nossos povos. Dispenso a dissertação que podia ser feita nesse sentido. Mas importa-me lembrar o papel central da luta de libertação nacional como processo que possibilitou o encontro dessas diferenças para a invenção do que hoje conhecemos como Guiné-Bissau. Quando Amílcar Cabral e seus camaradas escolhiam "Unidade e Luta" como base ideológica do movimento político que organizou a luta pela independência dos povos da Guiné e Cabo Verde, não o faziam por qualquer capricho ou modismo, mas porque a história da resistência ao colonialismo desmonstrava que nenhuma etnia, sozinha, conseguiu derrotar o poder colonial português, apesar de várias tentativas registadas nesse sentido. 

De igual modo, hoje, nenhum projecto de transformação da Guiné-Bissau, por mais progressista, patriótica ou revolucionária que queira ser, terá qualquer êxito se não levar a diversidade cultural do nosso país em conta. Isto vale para muçulmanos (como eu), cristãos, religiosos de matriz africana, ou pessoas que não professam qualquer região e que pensam estar a mobilizar-se pelo bem-estar do povo de que fazemos parte, repita-se: na sua complexa diversidade. 

A partir daqui, importará afirmar que, sempre que nos identificamos como parte de uma identidade, estamos implicitamente a recusar outras identidades no mesmo sentido. Vou ser mais claro: quando me afirmo como sendo fula, estou a dizer que não sou mandinga, nem pepel ou balanta; e, se me identifico como muçulmano, estou a afirmar que não sou cristão, nem professo a fé baseada nas religiões de raiz africana, nem sou buda. Mas para as minhas identidades religiosa, étnica ou cultural não se tornarem em instrumentos de opressão de identidades distintas, sou obrigado a respeitar, a aceitar a diferença das pessoas que se identificam com identidades distintas da minha. Ao mesmo tempo, tenho o direito de não admitir que ninguém me hostilize pela minha fé, minha etnia ou prática cultural. 

Na Guiné-Bissau, apesar de ainda convivermos pacificamente, não nos faltam sinais que tendem a perigar essa conquista que não foi fácil de construir. Já não podemos fingir os factos sobre: políticos e organizações políticas que baseiam a sua prática na instrumentalização de identidades étnicas e religiosas; pessoas que se acham de "praça" e que desdenham os que chamam de "gentios/tabankerus", apenas pelas diferenças culturais; muçulmanos que não conseguem praticar a sua religião sem agredir a liberdade de outras pessoas professarem a sua fé; cristãos que se afirmam mais puros que pessoas de outras religiões; e, sim, religiosos de matriz africana que taxam todos os que seguem um caminho diferente de "alienados". Qualquer um de nós que, para afirmar a sua fé ou identidade cultural, precisa de agredir as de outras pessoas, está a contribuir para radicalismos cujos efeitos conhecemos em países próximos de nós. Falo do Mali, do Burkina Faso, do Níger, da Nigéria, etc. 

Apesar de distante das redes sociais nestes dias, tenho acompanhado o  debate sobre as religiões, fundado num comportamento estúpido e condenável de um guineense e mandjaku islamizado que, num acto de agressão e intolerância religiosa, fez um vídeo ao lado de um santuário (baloba) à guarda da sua família, a desdenhar a fé a ele subjacente. Primeiro, não finjamos que seja um acto isolado. Não é. É prática frequente entre muitos crentes em religiões monoteístas na Guiné-Bissau. Mas não, não é uma prática religiosa, muito menos serão justas as posições que tendem a diabolizar a religião muçulmana e todos os muçulmanos a partir de um comportamento alheio. Mohamad, o profeta, nasceu numa sociedade que adorava divindades semelhantes, mas nunca as agrediu, limitando-se a afirmar a sua descrença nelas, livremente. Porém, esta forma de generalização também não é inocente, em muitos casos. Vêm de pessoas sempre à espreita de oportunidades para a expressão da sua islamofobia, fundada em leituras profundamente equivocadas do que é a essência do islão. 

Para essas pessoas, todos os muçulmanos são terroristas, jihadistas, ou fundamentalistas e a religião muçulmana é sinónima de terrorismo, jihadismo ou fundamentalismo. As suas opiniões sobre a religião muçulmana são bebidas de leituras que, por exemplo, culpam a religião muçulmana de escravatura de pessoas negras pelos árabes; e acusam o islão de ser religião mais hostil à liberdade feminina. Daí que não seja difícil imaginar que poucas pessoas entre elas procuraram conhecer a religião muçulmana; o contexto em que ela nasceu; a sua relação com as mulheres, o papel pioneiro que estas tiveram na sua edificação; o combate à escravização desencadeada pelo movimento fundador desta religião, sendo até dos factores que impulsionaram a revolta dos muçulmanos pioneiros.  Não o saberão, porque a sua visão sobre os muçulmanos e a sua religião se inscreve numa corrente que, apesar de se afirmar progressista, não perde uma oportunidade para meter "todos no mesmo saco", ao mesmo tempo que exigem o respeito à sua diferença, e porque não se dão ao trabalho de procurar saber para além das suas zonas de conforto. 

Para essas pessoas, quando a  vontade é atacar a religião muçulmana, deixam de contar as várias formas de opressão das mulheres nos patriarcados africanos ou noutros cantos do mundo; a escravização das pessoas negras pelos árabes, uma prática largamente anterior à religião muçulmana, só começa a contar a partir da fundação desta religião (e sem nunca se preocupar em saber como a mesma lidou com esta prática de desumanização). 

Todas as práticas culturais e supostamente religiosas são escrutináveis, sobretudo porque se tratam de práticas de pessoas e porque não nos faltam exemplos de instrumentalização de religiões ou etnias para fins inconfessos. Mas mantermo-nos vigilantes a essas instrumentalizações não nos dá a carta branca para generalizações infundadas, ataques e fobias escondidas numa suposta legitimidade de autodefesa. Como sempre, estarei na linha de frente para combater qualquer fundamentalismo ou instrumentalização de etnias e religiões que visem dividir os guineenses e instalar ódio no seu seio, afirmando e defendendo as minhas identidades fula, mandinga e muçulmana, de forma (auto)crítica, e reconhecendo, protegendo a liberdade de outros guineenses viverem livremente as suas escolhas. 

Sumaila Djalo


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