O lado político do #Euro2024
Termina hoje o campeonato europeu de futebol, #Euro2024. Uma competição que em termos desportivos tem muito que se comente, desde a desastrada última participação do Cristiano Ronaldo, o melhor futebolista português de sempre, até a eliminação precoce do campeão em título, a sempre "temível" Squadra Azurra, Itália. Mas essa tarefa ficará para aqueles que ainda se empolgam com a bola a rolar em diferentes provas de futebol mundial.
Eu quero comentar o lado político do Euro 2024 e anotar exibições de grande categoria a contrariar a falácia de que o futebol não é também um terreno de disputas ideológicas e de debate político.
A França foi eliminada nas meias finais. Mpappé, o melhor futebolista francês da actualidade, esteve longe do seu melhor nível em termos desportivos. Porém, a sua presença no Euro ficou marcada pelo apelo frontal ao voto contra a extrema-direita no seu país. Mbappé não estava à procura de sair bem na fotografia. Ele é negro, filho de imigrantes africanos, tal como boa parte da selecção francesa. Sabe o que a direita radical francesa pensa dos imigrantes africanos e conhece a sua política de ódio. Assumiu a sua responsabilidade cívica sem subterfúgios. Grande golo!
A Inglaterra volta a uma final europeia de futebol quatro anos depois de meio país ter espezinhado Jadon Sancho, Marcus Rashford e Bukayo Saka, negros e descendentes de imigrantes, por terem falhado penaltis no jogo que ditou a vitória da Itália na competição em 2020. Mas como o mundo dá voltas, foi com um golo do Saka no tempo regulamentar e outro nas decisões de grandes penalidades que a selecção britânica derrotou a Suíça nos quartos de final. No dia, Sancho não perdeu a oportunidade de agradecer ao amigo Bukayo, filho de imigrantes nigerianos, e recordá-lo de que o feito era também a sua redenção a do Rashford da condenação da facção racista da torcida inglesa. Viva Bukayo Saka!
A espanha é, sem dúvida, a selecção que praticou o melhor futebol até à final de hoje. Tal como a França e a Inglaterra, trata-se de uma antiga potência colonial e com o racismo embrenhado nas suas estruturas sociopolíticas. Porém, no europeu deste ano, a equipa espanhola depende muito de dois talentos afrodescendentes: Nico Williams, filho de um imigrante ganês, e Lamine Yamal, filho de pai marroquino e de mãe equatro-guineense. Para além de ser, seguramente, o melhor jogador da competição, Yamal, de apenas 17 anos de idade, celebra os seus golos com um gesto nas mãos que remete para os últimos dígitos do código postal do seu bairro de nascença, Mataró, Rocafonda: 304. O bairro é taxado pelos racistas da extrema-direita espanhola de "chiqueiro multicultural". Consciência de classe aliada à genialidade com a bola nos pés. Golaço!
A França não vencerá o europeu deste ano. Está eliminada. Mas Zidane, descendente de argelinos, é melhor jogador da sua história. Aconteça o que acontecer na final de hoje, ingleses ou espanhóis terão de lembrar de Bukayo Saka, Nico Williams e Lamine Yamal, negros e descentes de imigrantes africanos, como "heróis" de países que se imaginam como sendo apenas brancos. Mais: se Pelé e Eusébio já haviam metido em cheque a falaciosa superioridade branca nos quesitos da técnica futebolística, Saka, Nico e Yamal enterram-na no pleno solo alemão, onde um dia floresceu a ideologia nazista.
O #Euro2024, felizmente, não será lembrado apenas como palco de futebol. Sê-lo-á também por estar a terminar como um terreno de lutas políticas e de classe. Ainda bem!
Sumaila Djalo

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