Combater o ditador e não a sua sombra

 

Foto: Facebook do Umaro Sissoco Embaló 

"Se um ladrão assaltar a minha casa e eu tiver uma arma, não vou atirar contra a sua sombra. Tenho de disparar contra o bandido. Muitas pessoas perdem energia e esforço e fazem sacrifícios a combater sombras. Temos de combater a realidade material que produz a sombra. Se não podemos mudar a luz que é a causa da sombra, podemos pelo menos mudar o corpo. É importante evitar a confusão entre a sombra e o corpo que projecta a sombra." - Amílcar Cabral (in A Luta Criou Raízes, 2018, p. 322)

Na segunda volta das presidenciais de 2019/2020, fiz uma declaração pública do meu voto no Domingos Simões Pereira, candidato do PAIGC que se opunha ao Umaro Sissoco Embaló, apoiado por MADEM G-15, PRS e APU-PDGB (ler aqui). Não o fiz por mero protagonismo, muito menos por me considerar um cidadão especial. Fi-lo por preocupação com o rumo que o nosso país tomaria com Umaro Sissoco Embaló na Presidência da República. Enquanto Primeiro-ministro do José Mário Vaz (JOMAV) entre 2017 e 2018, Umaro Sissoco Embaló revelou todo o perigo que representava para as parcas conquistas do povo guineense no caminho da democratização. E mais: revelou-se um sujeito de apetite absolutista, violento e que não escolhe meios para atingir os seus fins. Mas era também uma forma de dizer que tenho consciência da diferença entre as minhas  largas diferenças ideológicas com PAIGC e a urgência de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance, enquanto guineense, por mais insignificante que fosse, para evitar a eleição do Sissoco. Mas ele ganhou-nos a aleição, para a infelicidade que hoje pagamos na pele. 

Ganhou-nos a eleição porque tinha apoio de uma larga franja dos maiores partidos políticos da Guiné-Bissau e de interesses estratégicos regionais com conexões neocolonialistas. Ganhou também por ter usado a hedionda arma de instrumentalização de identidades étnicas e religiosas para fins eleitorais. Lembremo-nos: o mais famoso slogan da campanha do Umaro Sissoco Embaló naquelas eleição foi "Ankala yídan hôremá". O sentido literal desta frase na língua fula é "queira o teu bem". Assim traduzida a frase pode não representar nenhum perigo. Mas inserida no contexto de uma campanha eleitoral e tendo sido usada apenas nas comunidades fulas, a tradução cultural é o Umaro Sissoco Embaló a apelar por voto étnico dos nossos parentes fulas. Além de todo um conjunto de símbolos de conotação religiosa que só começou a usar a partir daquela eleição. Nunca me calaria perante situações desta natureza no nosso país, multi-étnico e multi-religioso!

Cinco anos passaram desde a eleição de Umaro Sissoco Embaló e a concretização do perigo conhecido até por aqueles que o apoiaram para ser PR está à vista de todos. Vivemos sob um regime de perseguição, raptos e espancamentos daqueles que não se alinham com o seu carácter ditatorial. Um regime dirigido por alguém que se auto-proclama de Único Chefe, uma clara identificação bonapartista. É contra este regime que me tenho mobilizado durante estes cinco anos e ao lado de quem o combate. Não o faço por servilismo, muito menos por protagonismo barato. Faço-o por compromisso que, enquanto cidadão guineense, assumo para  a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Uma sociedade em que todos seremos livres de seguir a religião que escolhermos; de militar no partido ou pela ideologia com que nos identificamos; de defender a nossa opinião sobre o nosso país sem que isso seja motivo para sermos perseguidos e agredidos. Em que a nossa diferença não constituirá razão para hostilizar o outro, mas repeitá-lo e garantir um tratamento recíproco. 

É por estes ideais que me tenho mobilizado contra o regime do Umaro Sissoco Embaló e, muitas vezes, até ao lado do PAIGC/PAI-TR, apesar da minha declarada oposição ao que este partido se transformou desde 1980. Tenho assumido este posicionamento contra o regime por três motivos. Primeiro, porque lutar contra a ditadura do Umaro Sissoco Embaló é uma luta pela defesa do processo democrático e da Constituição da República. Ora, o PAIGC é a principal vítima política dos constantes atropelos à Constituição praticados por Umaro Sissoco, ainda que não seja uma vítima inocente. Segundo, porque não confundo a minha oposição ao PAIGC e ao podre sistema político de que é o principal configurador com a necessidade urgente de derrubar a ditadura do Umaro Sissoco Embaló, por ser o maior perigo a derrotar para a retoma do caminho para a democratização. Terceiro, porque tenho a noção de que ninguém sozinho derruba uma ditadura e, por isso, ser necessário construirmos uma possibilidade de união para derrotar a ditadura e todos aqueles que a mantêm de pé. No entanto, que tipo de união e com quem?

Esta pergunta é fundamental para mim porque não me revejo em qualquer esforço de forjar união contra a ditadura sem critérios baseados nos valores da liberdade e da justiça, na minha perspectiva, o mínimo denominador comum entre aqueles que se pretendem unir contra o Sissoco. Por outras palavras, não tenho qualquer interesse em esforçar-me para união com quem não só ajudou a tornar Umaro Sissoco Embaló PR, mas mais grave ainda, não demonstra o mínimo de compromisso com os valores da justiça e da liberdade. Assim como nunca farei parte de qualquer esforço de união em que a crítica e a autocrítica são secundarizadas por messianismo e culto de personalidade. Para mim uma luta a sério, seja ela qual for, tem de basear-se no acto constante de questionar cada opção a ser tomada no caminho dos objectivos a alcançar, neste caso, para derrotar Umaro Sissoco e os agentes da sua ditadura. Como pode uma estratégia de combate político ser concebível se já deu provas de falhanço em várias ocasiões?!

Não perco a minha "energia a combater sombras". Não participo na luta contra uma ditadura com que ao mesmo tempo se está disposto a conciliar. Muito menos aceito que me seja vendida a táctica de ser aliado com os agentes da ditadura, incluindo aqueles que com ela têm uma divergência circunstancial, para o combate à mesma ditadura. Para mim a causa que nos convoca a negociar união, apesar das nossas divergências ideológicas, tem de ser clara, definida com honestidade e sem calculismos. É, por outras palavras, combater a ditadura, compreendida como acção do ditador e dos seus co-adjuvante, ou não há possibilidade de eu me juntar a qualquer processo de união oportunista para fazer de conta que se está a combater uma ditadura. 

Sumaila Djalo 

** Amigos/as, chegamos ao fim da série de 5 reflexões que me propus publicar neste blogue sobre o estado actual da ditadura comandada por Umaro Sissoco Embaló na Guiné-Bissau. Mantenhas a quem insiste em ler-me mesmo quando estou de unhas e dentes em contra-mão com o que a maioria defende. Até...

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