Diima e uma mandjuandadi musical que marcará "No Tempo"

 


No seu primeiro álbum, Korson di Tambur (sobre o qual tive enorme gosto de traçar um olhar aqui), Diima já nos tinha permitido conhecer a essência da sua identidade musical, alicerçada nas influências inspiradas pela sua longa vivência no Brasil e de outras realidades musicais, mas com as raízes bem assentes no diverso chão cultural guineense. O próprio título do álbum anunciava este elemento central no seu ideal artístico. Aquele álbum é de uma musicalidade ímpar no universo do rap guineense. 

Cinco anos depois desse magnífico trabalho, Diima regressa às nossas colunas com No Tempo ("O nosso tempo", traduzido da língua guineense). São 10 faixas musicais que não só superam na qualidade o álbum anterior, o qual, repito, foi de uma excelente execução artística, mas consegue mais e, sem reserva no que a seguir afirmo: estabelece uma nova concepção sonora, melódica e lírica que representará, no panorama musical guineense em geral (não só na sua vertente do rap e derivados), uma expressão de originalidade cujas bases devem inspirar a nova geração de músicos. Passo a explicar porque ouso esta afirmação. 

No plano sonoro, ou rítmico, o afro-beat e as batidas do hip hop convivem numa harmonia extraordinariamente fluída com os ritmos de gumbe, tina, nhanheru, kussunde, djambadon, afro-mandinga, entre outros que os ouvidos mais afiados poderão decifrar. E são estes ritmos que orientam as impecáveis e diversificadas realizações melódicas dos 19 cantores convidados do Diima para esta ímpar mandjuandadi musical. Aliás, à dada altura, em "Dudu", canção com participação do Niga Tchunsu, este revela ter noção da linha musical que define o álbum em que participa, quando atira:

[...]
Na stilu amerikanu
Ma na repa tipu na djambadon
[...]

A mesma coerência de todos os instrumentos artísticos convocados para o álbum revela-se nas participações de Sambala Kanuté, que em "No dia" reitera as possibilidades de fusão entre as tradições griot e novos estilos musicais, enquanto Patche di Rima puxa pelos galões de gumbe; de Cipriano Có, cuja participação em "Mon money" transporta-nos para o fundo musical pepel; ou quando Chito decidiu desafiar o monumento melódico das cantigas de djambadon, imprimindo o seu talento de rapper peculiar na canção que dá título ao álbum, numa fusão com a participação do grande Kota Zé Manel Fortes, através de recriação de uma das suas mais ritmadas composições. Esta música constitui a mais expressiva intervenção político-social do álbum, onde a ironia serviu de estilo para atacar a hipocrisia e a demagogia que concorrem com outros males para a nossa desgraça colectiva. Outra fusão digna de registo nestas notas é a que recupera a essência de "Mama África", um original da Iragrett Tavares erguido sobre os ritmos contagiantes de mbalakh. 

Diima acaba de depositar uma obra de qualidade sublime no património musical guineense. No carácter colaborativo do álbum, com 19 intervenções vocais, além de outras várias participações na produção e execução instrumental, demonstra-se o seu sentido colectivo só igualável às tradicionais dinâmicas de mandjuandadi, contrariando a lógica de competições tóxicas não raras no nosso universo artístico. A uma dezena de nomes emergentes na música guineense, Diima junta outros com carreiras consolidadas. Na originalidade sonora - que funde ritmos tradicionais e contemporâneos guineenses com influências além-fronteiras - transmite uma concepção musical que se torna constante nas suas obras e, por isso, referência para novas criatividades na nossa produção artística. Por tudo o que ficou dito, mas também por muito que me é impossível de captar num trabalho artístico de qualidade excepcional, No Tempo merece todos os aplausos e atenção da nossa parte. 

O álbum pode ser ouvido aqui. Bless!!!

Sumaila Djalo 


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