Guiné-Bissau à espera da desgraçada CEDEAO


Quero ser rápido neste exercício. A ideia de escrever este texto surgiu de uma conversa com um velho amigo da Guiné-Bissau, conhecedor do país e das dinâmicas da CEDEAO. Também ele profundamente preocupado com a situação no país, tal como todos os interessados no seu progresso político e social. Concordámos em duas coisas. 1. A CEDEAO não é isenta das responsabilidades na actual situação política na Guiné-Bissau. 2. Porém, um olhar realista ao contexto obriga-nos a reconhecer que esta organização de influência françafricana decidirá na sua cimeira, em grande medida, o desfecho do golpe de Estado encenado por Umaro Sissoco Embaló. Aliás, neste preciso momento, o candidato vencedor das eleições presidenciais, Fernando Dias da Costa, e parte da sua directoria encontram-se em Abuja, na Nigéria. Eles que ingenuamente só esperam pela CEDEAO, quando há uma população revoltada por mobilizar para enfrentar o golpe sissoquista nas ruas da Guiné-Bissau. 

Amanhã, 14 de Dezembro de 2025, realiza-se em Abuja uma Cimeira dos Chefes de Estado e dos Governos da CEDEAO. As atenções estarão voltadas para as situações na Guiné-Bissau e no Benim. No primeiro país, há um ridículo "golpe cerimonial" a inviabilizar um processo eleitoral que ditou a derrota da ditadura divisionista e sanguinária de Umaro Sissoco Embaló. No segundo, foi frustrada uma tentativa de golpe de Estado que visava o Presidente Patrice Talon. Volto a uma referência rápida ao Benim mais à frente. Centremo-nos na Guiné-Bissau, que é o interesse desta reflexão.  

O histórico das intervenções da CEDEAO na Guiné-Bissau e a configuração da crise em que a organização se encontra não deixam grandes margens para esperar uma intervenção consequente contra o "golpe cerimonial" do Sissoco Embaló. Aliás, quando em Julho de 2022 a CEDEAO escolheu Umaro Sissoco Embaló para presidir a sua Cimeira, sabia que estava a entregar um órgão importante da organização à liderança de um ditador. Mas fê-lo porque as forças que a disputam internamente pendiam mais para os interesses aliados ao ditador guineense. Estes interesses situavam-se no Senegal, onde Macky Sall era Presidente, e na França, com a tradicional influência indirecta no funcionamento da CEDEAO, através de Estados e lideranças satélites que lhe são conhecidas na África Ocidental. 

Era previsível que a presidência da Cimeira da CEDEAO por Sissoco agravasse a crise da organização. Ele é exímio em jogadas tirânicas, mas no plano organizacional é pior do que o maior desastre. Depois dessa presidência, a CEDEAO enfrenta uma das suas crises mais disruptivas. Já sem Burkina Faso, Mali e Níger como Estados-membros, a CEDEAO voltou a demonstrar-se incoerente na sua actuação junto dos países-membros. Perante uma tentativa de golpe de Estado no Benim, apressou-se a enviar uma força de intervenção militar para proteger o Presidente Patrice Talon. Porém, na Guiné-Bissau, face a um claro golpe à vontade popular expressa nas eleições de 23 de Novembro passado, continua por assumir uma posição clara pelo respeito à soberania popular enquanto princípio definidor da democracia constitucional neste país. Além das diferenças geográfica e sócio-política entre os dois países, há um separador que explica a postura de "dois pesos e duas medidas" da CEDEAO. No Benim, o golpe visava de facto derrubar um regime françafricano liderado por Talon, enquanto na Guiné-Bissau o golpista é o próprio Umaro Sissoco Embaló, protegido pela sua aliança com Emmanuel Macron, presidente francês, que estará a dar tudo para evitar a queda do regime do seu afilhado político na Guiné-Bissau. A França está a lutar pela manutenção da sua influência numa África Ocidental a escapar-lhe dos tentáculos neocoloniais, do Senegal à Aliança dos Estados do Sahel. 

Perante este quadro, a CEDEAO será obrigada, na sua cimeira de amanhã, a escolher entre a salvação do sissoquismo enquanto regime serviçal dos interesses internos e externos instalados na CEDEAO, ou pela salvação do mínimo da sua credibilidade. Se optar pela primeira escolha, nada surpreenderá a quem é atento à natureza desta organização. Mas se for pelo respeito à soberania popular na Guiné-Bissau, a escolha ser-lhe-á não só decente, mas viável, contrariando o fatalismo que configura o argumantário dos golpistas sissoquistas empenhados em anular umas eleições concluídas na essência. Como a CEDEAO pode agir nesse sentido? Algumas ideias bebidas da conversa que originou esta reflexão são fundamentais:

1. Contra a invasão da CNE pelos golpistas, que terão reduzido a capacidade logística do órgão a zero, impossibilitando a conclusão do apuramento dos resultados eleitorais, a saída é retomar o apuramento desde as actas das mesas de assembleia de voto, que constituem a raiz da contagem dos votos no sistema eleitoral guineense. As missões de observação eleitoral da CEDEAO e da UA têm estas actas na posse. 

2. Face a um poder militar sob clara orientação do Umaro Sissoco Embaló - basta olharmos para a ligação de cada membro do regime com o ex-presidente da Guiné-Bissau - a CEDEAO deve intervir militarmente para: i) garantir a segurança para a CNE oficializar a conclusão do processo eleitoral, após monitorizar o apuramento alternativo para a reconstituição dos resultados eleitorais; e ii) assegurar a posse do Presidente da República eleito pelo povo da Guiné-Bissau, Fernando Dias da Costa, no parlamento guineense. 

3. A outra opção de intervenção da CEDEAO contra o "golpe cerimonial" na Guiné-Bissau é a aplicação das medidas de sanções, previstas nos protocolos da organização, contra todos os actores envolvidos na subversão da vontade popular na Guiné-Bissau. Estas medidas, se aplicadas de forma decidida e em concertação com outras organizações da chamada comunidade internacional, obrigarão o regime político-militar de transição a desistir do seu golpe encenado e possibilitam a instituição da vontade popular na governação na Guiné-Bissau. 

Qualquer escolha da CEDEAO que dê respaldo ao processo golpista de transição na Guiné-Bissau colocará a organização numa situação de ridicularia, pois iria contra a sua própria missão de observação eleitoral neste país-membro, cujo chefe, Goodluck Jonathan, não tem dúvida de estarmos perante um "golpe cerimonial", o que para Edwin Melvin Snowe, senador liberiano e deputado da CEDEAO que esteve na mesma missão de observação eleitoral, "só beneficia o próprio Umaro Sissoco Embaló", que continua em digressões internacionais e a pressionar as estruturas da CEDEAO, enquanto os líderes da oposição, incluindo um deputado guineense da CEDEAO, se encontram nas celas da ditadura de Umaro Sissoco Embaló. 

Sumaila Djalo 

Comentários

  1. Abaixo o regime ditatorial do sissoquismo , cartão vermelho ao golpe contra democracia , contra vontade manifestada do povo da Guiné Bissau 🇬🇼

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  2. Abaixo o regime ditatorial do sissoquismo, cartão vermelho ao golpe cerimonial, golpe contra vontade manifesta do povo , golpe contra democracia 🇬🇼

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  3. Esperamos que a CEDEAO olhe para a sua própria reputação, credibilidade e para a vontade popular expressa nas urnas pelo povo guineense.

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